#277: Entre o Amor e a Paixão - Lesley Pearse

, em sexta-feira, 5 de dezembro de 2014 ,
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Editora: Novo Conceito
Páginas: 512
Ano: 2013

Continuação do livro Belle, da mesma autora

Sinopse: Uma mulher dividida entre o compromisso e o calor de um relacionamento passado. No início da Primeira Guerra, Jimmy, o marido de Belle Reilly, é levado para as trincheiras mortais do norte da França e Belle percebe que não pode ficar de braços cruzados quando tantos estão sacrificando suas vidas. Armada de coragem e boa vontade, ela se torna voluntária como motorista da Cruz Vermelha, também na França.Então, enquanto cumpre seu dever humanitário, um trágico acidente lhe coloca frente a frente com Etienne — o homem que fez parte de seu passado e a quem nunca esqueceu completamente.Dividida entre a paixão proibida por Etienne e a lealdade e o amor por Jimmy, Belle encontra-se em uma situação impossível. A confusão de seus sentimentos, misturada à escuridão da mais brutal das guerras, a levará a sucumbir para sempre, ou a força da vida será maior e a conduzirá, finalmente, à verdadeira felicidade? (via Skoob)



Não sei se vocês já leram a resenha de Belle que eu fiz, tipo, século passado neste blog lindo do meu kokoro. Entre o Amor e a Paixão é a continuação daquela história. Eu estava e não estava esperando que a autora se dedicasse a uma sequência. Explico: a história inicial terminou de uma forma agridoce, com alguns assuntos inacabados que, na minha humilde opinião, foram as melhores decisões de enredo da Pearse nos últimos capítulos do primeiro livro. Por causa desse desenvolvimento súbito e subsequente encerramento insatisfatório, a escritora tinha um gancho bom para retornar ao seu universo em Londres no começo do século XX.

Entretanto, Belle encerra com um sentimento de finalidade e dever cumprido. A pequena parte inacabada de história era exatamente isso, pequena. Por mais que eu esperasse que a autora explorasse melhor os sentimentos e possibilidades da protagonista ao longo de sua jornada final de volta para sua casa londrina, tudo o que aconteceu no desfecho da história foi devidamente justificado - por vezes de forma conveniente e meio insossa, é verdade - e não houve aquela expectativa que existe quando um livro acaba e o leitor fica em um estado similar ao garotinho daquela propaganda do Tang nos anos noventa. Sabe, "quero mais!".



Diante desses fatos, a notícia que a Camila Araújo me deu a respeito da continuação me fez exclamar "ahá, eu sabia que a Pearse ia se tocar do vacilo cometido" ao mesmo tempo em que eu rezava para a autora corrigir todos os erros de ritmo da história anterior. Se ela não fizesse isso, ia ficar muito. Chato. De ler.

Ah, não dá para eu falar muito de Entre o Amor e a Paixão sem comentar o final de Belle, então, pardon my spoilers. O fato é que a Belle, no fim de Belle (nome no nome!), volta para Londres, toca a vida para frente, abre a loja de chapéus que ela descobriu ser a vocação dela, casa com o amiguinho Jimmy Reilly e, aparentemente, estava encaminhada para ter uma vida feliz, longe de bordéis e sequestradores. Entretanto, antes desse final todo certinho, a Belle passou um tempo com o Etienne, o malandro francês que ajudou-a a lidar com seu destino de cortesã quando a levou (sequestrada, por sinal) de navio até os Estados Unidos da América e, tempos depois, ajudou-a a fugir dessa vida quando ela já estava na França.

Gente. É o seguinte. Desde que o Etienne apareceu, a personalidade, a história, a motivação e atitude do rapaz tornaram-no a personagem mais interessante da história em segundos. Ele é divertido e humano, qualidades que faltam em quase todos os outros personagens da série, inclusive a protagonista. Depois da primeira aparição dele, no entanto, eu já estava conformada de que ele não teria mais muita importância na história, até porque ele se recusou a se envolver com a Belle-adolescente porque 1. Não podia tirar a virgindade da moça, senão os chefes dele o matariam; e 2. Ele era casado, amava muito a esposa e tinha filhos. Então, risquei da lista de torcida porque o Etienne demonstrou ser um capanga de gangue com moral e escrúpulos. Mais ou menos.

O negócio é que a Pearse desfez toda essa saída-pela-lateral-do-palco do personagem ao torná-lo o centro de uma das partes mais emocionantes e cheias de ação da história, ao mesmo tempo em que informava ao leitor que a mulher e os filhos do cara tinham morrido tragicamente em um incêndio. Ou seja, não só o Etienne demonstrou ser um personagem carismático e um verdadeiro herói na trama, como também estava livre e desimpedido para agarrar a Belle no final da história.

O fato dele NÃO ter feito isso é a parte mais insatisfatória do primeiro livro e também o link para o segundo volume.

Resumindo: eu fiquei na expectativa de ler um triângulo amoroso tórrido que justificasse o título: Entre o Amor (que obviamente seria o estável e seguro Jimmy) e a Paixão (Etienne, uh lá lá). Aliás, o título dá um baita spoiler desse plot e está longe de se parecer com o original da Pearse, que era "The Promise" ("A Promessa", em Português).

No entanto, mais uma vez, a narração pautada da Pearse acabou tornando a história muito expositiva e entrecortada. Ela dá voz a personagens que não complementam muito bem a leitura, ou alterna pontos de vista em horas inapropriadas. Em um momento no meio do livro, ela pulou entre Belle, Jimmy e Etienne e eu simplesmente não notei nenhuma transição no clima da narração. Quero dizer, eu sabia que estava lendo o enredo pelos olhos de um ou outro personagem, mas o ritmo e o raciocínio deles parecia o mesmo.

E muitas coisas importantes que ocorreram no livro anterior perdem o propósito e se destroem neste, vítimas de um misto dramalhão e seriedade. Por exemplo, a loja de chapéus, que era o sonho maior da protagonista no primeiro livro, é deixada de lado de uma forma que não passou, pelo menos para mim, a noção de que a personagem principal estava realmente abalada com a decisão de largar esse negócio.

Sobre o excesso de exposição, a escritora demonstra ter tido um cuidado primoroso com pesquisa sobre Londres e o resto Europa no início do século XX, bem como o impacto da Primeira Guerra Mundial sobre a sociedade londrina daquele tempo, traduzidos nas mudanças na vida dos Reilly e companhia. Todavia, esse detalhismo criou muitos capítulos e subplots supérfluos, que não adicionaram nada ao enredo e só serviram para tornar a leitura tediosa. Confesso que sofri ânsias de pular algumas partes em busca de algo que me prendesse ao livro, motivo pelo qual só estou escrevendo essa resenha praticamente um ano depois de recebê-lo da chefa.

Não vou discutir muito o enredo para não estragar a surpresa de ninguém, mas achei que, mais uma vez, a autora recorreu ao uso recorrente de deux ex machina para solucionar problemas situacionais e mentais dos personagens. O final deixou em mim o gostinho distinto de novela mexicana, e como o livro tem pretensões de se levar a sério demais, essa sensação me deixou um tanto frustrada.

Quanto à diagramação e estética, contudo, não tenho nada a reclamar. O livro é tão bonito quanto o primeiro volume, a foto de capa é belíssima e a tipografia combina muito com a proposta da história. 

Enfim, meu veredicto é: encare esses dois livros como simples romances de loja de jornal, sem muitas expectativas, sem esperar algo inovador e deslumbrante. Não esperem que o livro cause epifanias, okay?

Nota: 3,5/5


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