Artigos de Colecionador #6

, em quarta-feira, 15 de outubro de 2014 ,
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Fanworks & Fanfiction: De Fãs, Para Fãs

ou: Um Pouco de Informação Para Desmistificar o Preconceito


Alguém que tenha lido a série Harry Potter pode ter imaginado, em algum momento de conjecturas sobre o enredo, como teria sido a história se Sirius Black não tivesse sido acusado de ter traído a confiança de seus amigos. Será que Harry teria crescido com o padrinho, em meio à cultura bruxa do Reino Unido? Ou talvez Sirius, desconfiado e cabeça quente, optaria por levar o afilhado para bem longe do mundo bruxo britânico e os perigos dos Comensais que ainda estavam soltos por aí. Iriam para o Egito, quem sabe? Imaginem só, Harry crescendo em meio às Pirâmides de Gizé, aprendendo sobre hieróglifos e múmias e preferindo voar em tapetes ao invés de vassouras!

Ah, mas vejam só: outro Alguém, depois de assistir, por exemplo, Card Captor Sakura, aquele anime da CLAMP, continua empolgado na vibe do final e começa a pensar a respeito do futuro dos protagonistas. Será que o Syaoran volta para o Japão para ficar com a Sakura? A família dele vai deixar, mesmo? E se acontecer mais alguma coisa séria, um novo vilão? Seria interessante saber como vai ser a vida deles dali em diante, não é?

Ou então, ou então! Sabe aquele seriado, Supernatural? Acontece muita coisa ruim na vida dos irmãos Winchester, não é? Seria legal se o Dean pudesse mesmo ter consertado tudo quando voltou no tempo e conheceu os próprios pais antes de se casarem. Aliás, seria melhor ainda se eles não fossem caçadores de demônio e pudessem levar uma vida menos dramática, não? Eles podiam ser... Policiais! É, o Dean seria um agente do FBI obcecado pelos próprios casos, o Sam seria um Promotor justiceiro ou um advogado de defesa altruísta demais... Okay, eles provavelmente se meteriam em confusões proporcionais às da série, mesmo tendo profissões "normais".

É, galera, é até piada pensar que os caras teriam uma vida normal em qualquer cirscunstância

Espera, espera, pensa aqui comigo sobre como seria LEGAL se o pessoal de Star Trek estivesse por aí "audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve" e acabasse entrando em uma galáxia muito, muito distante e dando de cara com toda a confusão de Sith, Jedi e golpes de estado interplanetários de Star Wars! Aposto como o Comandante Spock iria a-do-rar os ensinamentos da Ordem Jedi, com aquele negócio de "toda vida é preciosa" e "não devemos nos deixar levar por nossas emoções", tudo bem epicurista.



Ah, e já que eu estou falando de sagas famosas e complexas, admitam: ia ser hilário se a equipe de Vingadores, ao invés de ser heroica e salvadora do universo, fosse, na verdade, um grupo de extração de sonhos tipo aquele de Leonardo di Caprio e companhia em "A Origem". Não, sério. O Tony Stark seria o Arquiteto, o Bruce Banner/Hulk seria o Químico, a Viúva Negra DEFINITIVAMENTE seria a Extratora, o Hawkeye seria o Falsificador, o Capitão América seria o Armador, e o Thor seria o Turista que estaria pagando o grupo para implantar na mente do Alvo, Loki, umas ideias felizes e menos megalomaníacas para o cara parar de se voltar contra a própria família.

Inception faz isso com as pessoas mesmo, Tony, não esquenta.
Enfim, como diria Sherlock Holmes - inclusive, citado pelo já mencionado Spock na já mencionada série Star Trek: "infinita diversidade em infinitas combinações". Meu objetivo com essa exposição, no entanto, é explicar que caso eu desenvolvesse qualquer das ideias acima discorridas em alguma forma de mídia, estaria criando uma fanfiction.

O que é fanfiction?

O assunto começa complicado: não há uma definição ou jurisprudência pacificada sobre o que é e o que não é fanfiction. A grosso modo, uma fanfiction é um tipo de fanwork, ou seja, "trabalho de fã", referente aos projetos realizados pelos fãs para homenagear, interpretar, estudar a fundo ou simplesmente se divertir dentro do universo de uma série de livros ou seriado ou filme ou qualquer coisa que venha a ter fãs. Entretanto, a fanfiction em particular se manifesta de forma escrita, seja prosa ou poesia, seja gravada em áudio (nesse caso, é chamada de "podfic"). Essa é a única parte da descrição desse tipo de trabalho que não tem polêmica em cima. Provavelmente.

As fanfics ou fics, como são carinhosamente chamadas pelos seus autores e leitores ávidos, são escritas utilizando personagens, cenários, enredos (às vezes juntos, às vezes separados) de uma ou mais obras publicadas pelo mundo. Isto é, a história contada nessas fanfictions está embasada em uma outra história "oficial", comumente referida como "canon". Por exemplo: uma fanfiction de Harry Potter - saga que sobrepuja todas as outras no número de fanworks de qualquer estirpe - pode contar a história do último ano de Hermione em Hogwarts, quando ela voltou sozinha para terminar sua educação. Nesse caso, o autor vai utilizar todo o universo e os personagens criados por J. K. Rowling, apenas explorando um ângulo que a autora deixou em aberto. Entretanto, pode ser uma fanfic que pegue a personagem Hermione Granger, sua personalidade e essência, e a coloque em um mundo onde bruxos não existam para contar a jornada dela como uma promotora de justiça. Ou pode ser que o autor da fic utilize o universo mágico de Harry Potter e coloque nele personagens que não foram criados pela Rowling, sejam eles originais, criados pelo próprio autor, sejam eles de outras histórias. Quero dizer, imagina a galera de Hunger Games cursando Hogwarts? A Katniss seria Slytherin, com certeza.

Vai lá, Katniss.

O que essa explicação demonstra com clareza é que o universo dos escritores de fanfiction é um universo de possibilidades. Quem escreve esse tipo de trabalho como hobby o faz para se divertir ainda mais dentro de seus fandoms ("domínio dos fãs", tudo o que envolve a série/livro/filme/jogo/etc que você gosta). Ultimamente, a cúpula intelectual dos fanfiqueiros têm chamado fanworks de transformative works, "trabalhos transformativos", porque é isso que eles fazem: transformam, expandem, exploram o alcance dos enredos e da própria cultura dos fãs.

Diz a lenda - e os estudos antropológicos de algumas universidades nos EUA - que a popularização das fanfictions estourou durante as primeiras exibições da série Star Trek. Naquela época, as histórias eram publicadas em fanzines, que são uma espécie de revistas feitas pelos fãs contendo fanart, fanfic e outras coisas pertinentes ao fandom. Essas publicações circulavam pelos aglomerados de fãs e eram abastecidas pelos correios. Então, não era um processo muito rápido e prático compartilhar os fanworks.

No entanto, veio o século XX e, com ele, a massificação da internet. Começaram a surgir sites pessoais que permitiam edição e publicação de conteúdo próprio dos usuários, como os Geocities e os fóruns; a partir daí, ficou bem mais fácil compartilhar fanworks. Não demorou muito para surgirem os primeiros arquivos de fanfiction, sites que permitiam afiliação de membros, busca por histórias dividias em categorias, como uma biblioteca online de fanfictions. Desses sites, os que mais cresceu e ganhou notoriedade foi o Fanfiction.Net, que foi fundado em 1998 e ainda hoje possui o maior acervo de fanfictions da web.

Existem diversos autores populares que começaram a escrever através de fanfictions. Um dos exemplos mais famosos é a Cassandra Cla(i)re, que fez muito, muito sucesso escrevendo histórias no universo de "O Senhor dos Anéis" e mais sucesso ainda com seus contos embasados em "Harry Potter". A moça era uma Big Name Fan de Harry Potter com moral o suficiente para criar verdadeiras lendas no fandom.

Falando sério, a Trilogia Draco que ela escreveu e publicou em sites de fãs antes mesmo do livro cinco sair eram tão boas que eu cheguei a mencionar, em alguns momentos, que preferia a história da Clare à história original. Os últimos três livros saíram e fizeram com que eu mudasse de ideia, mas eu não consigo dissociar os enredos da Clare de algumas coisas do fandom de Harry Potter. Sério, a mulher contribuiu para popularizar o Draco Malfoy entre os fãs, razão pela qual esse personagem, originalmente intragável e por vezes mal aproveitado pela Rowling, acabou se tornando muito querido entre os fãs. Quero dizer, a Clare praticamente criou o Draco Vestindo Calças de Couro e ainda aplicou esse desenvolvimento de personagem ao Jace de TMI. Esperta, ela.

(Por sinal, não sei se vocês que leram Fangirl da Rainbow Rowell perceberam, mas os personagens fictícios pelos quais a Cath é obcecada são paralelos óbvios de Harry e Draco. São claramente uma paródia. Eu amo esse livro, cara.)


A Holly Black também começou nas fanfictions - inclusive, é uma das melhores amigas da Clare e também era uma Big Name Fan. Outro que escrevia fanfictions era G. R. R. Martin, autor das Crônicas do Gelo e do Fogo. E esses são os que eu lembro de cabeça, existem dezenas que começaram a escrever no mundo criado por outros autores antes de enveredarem pelas próprias criações.

Polêmica


A famigerada polêmica da fanfiction está apoiada em uma das áreas mais nebulosas do Direito em qualquer país do planeta, que é a regulamentação da propriedade intelectual e dos direitos autorais. Alguns críticos afirmam que o ato de escrever fanfictions fere os direitos autorais dos donos do copyright; certos autores, inclusive, já exigiram publicamente (e juridicamente) que não hajam fanfictions escritas em seus universos. Um exemplo famoso é a Anne Rice, que já se justificou dizendo que seus personagens são "como filhos" e que ela fica horrorizada em vê-los sendo utilizados por alguém que não seja ela própria.

Ninguém pode dizer que ela está errada em pensar assim, é claro. Quando se cria alguma coisa, há sentimentos de posse e carinho pelo trabalho. Todavia, a questão é: Rice tomou ação jurídica contra os domínios mais famosos de fanfiction e impediu a publicação das histórias com seus personagens, sendo que TODAS essas histórias eram completamente, cem por cento, com certeza, sem fins lucrativos. Na maioria dos casos jurídicos de copyright, o maior argumento de defesa é: se a parte acusada não está lucrando, denegrindo ou difamando o autor ou o detentor dos direitos originais, não há crime. Se alguém publica no YouTube sua própria versão de uma música famosa, ninguém vê isso como um ato criminoso, contanto que o youtuber identifique o autor original e não se intitule como dono da versão primária. Ou seja, é um cover - e alguns músicos até ganham dinheiro vendendo versões modificadas de músicas já existentes.

O fato é que nenhum autor de fanfic lucra escrevendo a menos que tenha permissão para fazê-lo, e nesse caso já fica complicado chamar a obra de fanfiction quando ela tem publicação oficial, não é? Embora ela seja, essencialmente, uma fanfiction.

Aliás, existe uma lista interminável de obras que já ganharam prêmios do tipo Pulitzer e são, em essência, fanfictions. Falo sério, seríssimo. Querem alguns exemplos?

Começarei por um bem polêmico, que ganhou um Nobel: "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", de José Saramago. Opa, como assim, é uma obra de arte, esse livro!!! E o único prêmio Nobel em língua Portuguesa, diga-se de passagem. Todavia, é basicamente o Novo Testamento (fandom original) sob o ponto de vista de Jesus (personagem já existente no fandom), bem bonitinho na definição de fanfiction dada há alguns parágrafos atrás.

Quer mais um exemplo? Um livro que ganhou o Prêmio Pulitzer em 1992, "Uma Bela Propriedade" de Jane Smiley, é uma versão moderna do conto shakespeariano "O Rei Lear" (que, por sua vez, foi criado embasado em vários contos populares da época). Outro exemplo! "O Senhor March", de Geraldine Brooks, ganhou o Prêmio Pulitzer em 2006 recontando, por outros olhos, o livro "Mulherzinhas" de Louisa May Alcott. E mais um Nobel: J. M. Coetzee venceu o Nobel de Literatura em 2003 com o livro "Foe", que usou a narrativa de Robinson Crusoé em uma exposição brilhante sobre colonialismo e exploração do poder.

E esses são só alguns dos premiados. Ainda existem outros milhares de livros embasados em outros livros, em filmes, em peças de teatro, romances sobre a vida de pessoas que existiram de verdade... Só dos livros da Jane Austen dá para reunir uma penca de coisas, hein. Olha só: "Orgulho e Preconceito e Zumbis" (vindo de "Orgulho e Preconceito"), "As Patricinhas de Beverly Hills" (versão moderna de "Emma"!), "O Diário de Bridget Jones" (versão moderna de "Orgulho e Preconceito"! E que, por sinal, revolucionou a popularidade do gênero chick lit)...

Quantas versões de "Romeo e Julieta" vocês já leram ou assistiram nessa vida? Vamos lá, da lista da Wikipedia: "O Rei Leão 2: O Retorno de Simba" (siiiiim, o Kovu e a Kiara!), "Gnomeu & Julieta" (duh), "Um Amor que Acaba em Pizza", o coreano "Make Your Move", o brasileiro "O Casamento de Romeo e Julieta", "Meu Namorado é um Zumbi" e, é claro, "Titanic". Aliás, cês sabem que o original de Shakespeare era uma fanfic de um poema italiano, né?

E os contos gregos? Pera, que aqui tem demais: PERCY JACKSON, "O Incêndio de Troia" da Marion Zimmer Bradley e incontáveis poemas embasados na Guerra de Troia retratada por Homero; aliás, falando em Ilíada, na própria Grécia Antiga existiram fanfictions dessa obra (tipo a peça "Aquiles", a peça "Helena")... Inclusive, sabe Eneida? Virgílio - que definitivamente era fã tiete de Homero - pegou um personagem de Ilíada e escreveu uma história sobre ele partindo do final da obra primeira.

Hmm, e as lendas arturianas? Praticamente TODAS as obras mais conhecidas sobre a história de Rei Arthur e seus cavaleiros são fanfictions. O exemplo que eu mais gosto de citar é a série da Marion Zimmer Bradley, "As Brumas de Avalon", mas existem MUITAS OUTRAS, tipo "Avalon High" da Meg Cabot, aqueles livros do Bernard Cornwell, "O Único e Eterno Rei" de T. H. White, ai, gente, até o Tolkien escreveu sobre Rei Arthur. E eu nem vou comentar de fanfics da Bíblia. Porque ela é o livro mais publidado do mundo, é coisa demais para falar. Só digo que existem. Muitas.

Poderia passar o resto desse artigo citando obras desse gênero, mas vou deixar aqui a publicação de onde tirei boa parte dessa lista, escrita pela escritora e jornalista Aja Romano: I'm done explaining why fanfic is okay. É um artigo genial que rebate uma crítica que definiu fanfiction como "plágio criminoso, imoral e não imaginativo". Particularmente, achei a lista de exemplos acima um argumento contrário bem contundente.


Que fique claro que não estou dizendo aqui que qualquer obra que faça referência ou seja levemente semelhante a outra é uma fanfiction. É claro que não. Esses exemplos que a Srta. Romano reuniu foram claramente embasados em outras obras; a maioria, inclusive, citou a fonte original. Além disso, esses são exemplos completamente protegidos pela lei para lucrarem com o que são, seja por permissão direta dos autores originais, seja pelo vencimento dos direitos autorais.

Isso não é uma coisa ruim. Muito pelo contrário, ser inspirado por outras obras é sinal de vivência, de cultura acumulada. O que eu estou querendo dizer aqui é: se esses autores renomados, premiados, podem escrever e fazer arte embasada em outras obras, porque um adolescente que acabou de assistir a um episódio de "Stargate: Atlantis" não pode escrever sua própria história no universo dessa série que ele gostou tanto? Como disse a Srta. Romano em seu artigo:

"Não que eu esteja afirmando que esses trabalhos profissionais publicados tenham os mesmos objetivos e intenções dos fanworks, ou que eles são completos sinônimos; ao invés disso, o propósito dessa lista é mostrar que em todos os casos acima, a ação e o resultado, a prática de escrever e a história produzina são ambos idênticos ao ato de produzir fanfic. Não há diferença. E é por isso, no fim das contas, que escrever fanfic é válido." - Aja Romano, I'm done explaining why fanfic is okay no LiveJournal

Por que você falou de preconceito no subtítulo da matéria?

Além da acusação de que trabalhos transformativos como fanfiction e fanart ferem os direitos autorais e são uma manifestação da falta de criatividade dos autores, existe um imenso preconceito embasado em determinados aspectos desse tipo de atividade recreativa.

O primeiro "problema", constantemente abordado nas críticas e chacotas, está no fato de que escrever fanfictions é uma atividade predominantemente feminina. A maioria esmagadora dos autores é mulher, das mais variadas idades, origens e preferências. Dentro e fora dos fandoms, acabaram ganhando a denominação de fangirls - como o nome do livro da Rainbow Rowell, que trata justamente disso! Esse nome significa, de forma direta, "garota-fã", e não é um nome pejorativo por si só. Contudo, muitos dos críticos começaram a imprimir nessa alcunha conotações negativas, relacionando-as a tietes descerebradas, dramáticas, briguentas e obcecadas que têm ideias completamente "deturpadas" a respeito das obras que elas gostam.

Ou seja, enquanto os "fanboys" de quadrinhos, Star Trek e Star Wars tornaram-se os heróis da geração Millenium por terem action figures, sabres de luz e falarem Klingon fluentemente, as "fangirls" perdem seu tempo interpretando histórias e expandindo-as através de novas histórias, vistas como inúteis, perda de tempo. Mas, por favor, alguém me explique a função social de ter uma réplica da Estrela da Morte no meio da sala. Ou de catalogar todos os mistérios não resolvidos de Lost.


Outro "problema" apontado pelos críticos é a concentração de contos eróticos ou pornográficos nessas histórias feitas por fãs.

Deixa eu respirar fundo aqui, um instante.

Para começar, a maioria das fics publicadas na internet estão arquivadas no Fanfiction.Net, site que PROÍBE a publicação de qualquer coisa classificada como NC17 (No Children Under 17 admitted), ou seja, histórias que contenham cenas de sexo ou violência explícitos. Então, é muito difícil que tantas histórias assim existam exclusivamente como pornô em prosa. Como alguém que lê muita - MUITA - fanfic, garanto que a maioria absoluta é menos explícita que qualquer romance Harlequin que se possa encontrar em uma banca.

A maioria dos autores aprende a informar aos leitores sobre qualquer cena que possa incomodar, seja através do sistema de classificação de publicações internacionais, seja através de comentários do próprio autor. Esses avisos, aliás, não se resumem a cenas de sexo ou violência: qualquer tipo de situação que possa ofender ou iniciar alguma reação psicológica nos leitores geralmente são informadas de pronto. Por exemplo, quando a história trata de temas como ataques de pânico ou estupro, os autores, sabendo do conteúdo sensível, avisam a respeito.

O pior "problema", a meu ver, é a crítica aos "ships". Para quem não sabe, "ship", que é "navio" em inglês mas surgiu do esquartejamento da palavra "relationship" (relação), é o nome do fandom para os "casais" pelos quais os fãs torcem. Por exemplo, se você torce para a Maria Ísis terminar a novela "Império" em um relacionamento sério com o Comendador, você está "shipando" esses dois personagens. Esse é um setor muito passional de todo e qualquer fandom e é um hobby digno de verdadeiras guerras internas, busca por provas canônicas, discussões homéricas em fóruns e redes sociais... Enfim, a galera se empolga bastante quando se trata de ship.

Os críticos consideram isso uma loucura patológica, histeria coletiva, especialmente quando o ship em questão sai da heteronormatividade. Em outras palavras, muitas pessoas ficam horrorizadas em imaginar, por exemplo, uma história onde o Percy Jackson comece a retribuir a quedinha que o Nico di Angelo tem por ele. "Percy é hetero, é um absurdo imaginar que ele possa ser gay ou bi!", argumentam, esquecendo que metade das lendas gregas tinham uma gotinha - ou um balde todo - de homossexualidade.

Shipping em imagens.
A questão é: os fãs podem interpretar os trabalhos de seus autores favoritos porque essa é a principal interação, a principal liberdade que eles têm como fãs. Uma obra literária, filmográfica ou o que seja não deve esperar que seus apreciadores sejam passivos - se eles forem passivos, isso quer dizer que a obra não teve impacto algum na vida deles e está fadada ao esquecimento.

Shipar, escrever fics, aprender fatos, analisar decisões dos personagens, tentar calcular as coordenadas geográficas de Hogwarts na Escócia, tudo isso é atividade de fã. Como um fã aproveita seus fandoms, suas formas de entretenimento, é escolha dele, e só dele. Se o fã quer ter um cachorro branco e chamar ele de Fantasma que nem o direwolf do John Snow, é escolha dele. Se o fã quer fazer e se fantasiar com uma réplica da armadura de Sagitário dos Cavaleiros do Zodíaco, é escolha dele. Se o fã quer tatuar seu nome na língua élfica da Terra Média, é escolha dele. Se o fã quiser escrever uma história onde o Sherlock Holmes e o John Watson estão romanticamente envolvidos, é escolha dele.

Fanworks são trabalhos de fãs, para fãs, para si mesmos. Não devem qualquer satisfação aos criadores do material original enquanto não os afetarem moral e financeiramente. Muito pelo contrário, geralmente o investimento, a empolgação de um fã com a série faz com que ela continue existindo, se popularize, ganhe mais dinheiro. J. K. Rowling, por exemplo, adora fanworks, já abençoou a prática de escrever fanfictions e se beneficiou enormemente com a popularização de fics, análises, podcasts e outras coisas do gênero. Muitos seriados americanos só se renovaram para novas temporadas por causa do apelo dos fãs, como é o caso de Sherlock (BBC) e Hannibal.


Séries, livros, filmes cujos criadores ou donos tentam tolher a liberdade criativa dos fãs tendem a se manter pequenas ou perder popularidade. Um exemplo recente é a série da MTV Teen Wolf, que conseguiu enorme popularidade principalmente por causa da dedicação dos fãs do ship "Sterek" - e que perdeu boa parte dessa popularidade quando começou a ridicularizar publicamente os fanworks desses mesmos fãs.

Onde eu posso encontrar esse negócio?

As fanfictions estão em todo lugar da internet, basta dar uma voltinha básica pelo Google. Entretanto, existem sites que são considerados os templos desses fanworks, alguns mais conhecidos do que os outros. Vou listar aqui os mais populares, com os prós e contras.


FANFICTION.NET
Comumente abreviado como FFN, é o mais popular dos arquivos de fanfiction, apesar de já ter passado por seus dias de glória. Tem uma interface simples e direta que permite escolher fandoms e filtrar histórias por diversas categorias, como gênero, tamanho, personagens proeminentes, classificação, se está completa ou não... Tem um sistema de comentários e favoritos para fornecer feedback aos autores, permitindo destacar as histórias mais populares e queridas. Entretanto, por ser um site que permite pouca formatação nos textos, está perdendo a popularidade. Além disso, como adotou uma política de tolerância zero com histórias contendo temas adultos, perdeu uma parte de seu acervo e continua deletando histórias quando existem denúncias, mesmo sem analisar os casos.

A maior vantagem é a quantidade e diversidade de histórias nesse site. Como é antigo, contém muitas das pérolas dos fandoms em mais de dez línguas diferentes - inclusive o Português.

ARCHIVE OF OUR OWN

O AO3 tem crescido e se tornado cada vez mais popular por ser um portal dinâmico, exclusivamente administrado por fãs com muita ética e responsabilidade (através da Organization for Transformative Works), e por permitir absolutamente todo tipo de fanwork digital que possa ser produzido. Ou seja, não contém apenas histórias: contém fanart, músicas, playlists, montagens, podfics e até meta-análises das histórias. Possui um sistema de tags muito divertido, embora por vezes confuso, e permite muita liberdade de formatação.

Infelizmente, ainda é um arquivo cujos trabalhos são abrangentemente em Inglês. Você encontrará as melhores histórias dos fandoms mais recentes nesse site, mas dificilmente lerá alguma em Português. Aliás, esse site tem uma relação de mutualismo com o Tumblr, então, não estranhe encontrar links de um para outro e vice-versa.

NYAH! FANFICTION

É o maior e mais completo acervo de fics brasileiras. Tem uma interface bonitinha e permite o uso de imagens de capa. Acho o sistema de reviews e a separação de capítulos um tanto burocrática, mas esteticamente agradável. Se quiser achar alguma coisa em Português para ler, de qualquer fandom, aqui é o lugar.


Outros lugares que surgem como foco de escritores são redes sociais como o Tumblr e o LiveJournal. Esse último, inclusive, caminhou com o FFN durante seus anos áureos e ainda hoje tem publicadas muitas fics que não existem mais no próprio FFN. Foi no LJ que surgiram muitos aspectos da cultura dos ficwriters, como os Kink Memes, os Desafios, os Prompts, os eventos de troca de fanwork e as Tropes.

Ufa.

O que você pode fazer com toda essa informação


Bem. Pode fazer nada e só ficar informado de um aspecto da cultura pop atual. Ou talvez pode começar a perder um pouco do preconceito, se tinha. Ou pode clicar em um desses links aí em cima e procurar alguma história sobre o seu personagem favorito.

A escolha é sua, se você é um fã, também.







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