Artigos de Colecionador #4

, em sexta-feira, 24 de maio de 2013 ,
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TV Tropes: as diretrizes da cultura pop

Nada se cria, tudo se copia é Trope


Já dizia Lavoisier


Acredito que todos que estudaram Ciências no Ensino Fundamental saibam quem era Antoine Lavoisier e reconheçam a famosíssima frase atribuída a ele: "na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". É claro que Monsieur Lavoisier estava se referindo às leis de conservação da matéria, mas eu adoro uma analogia e passei dias pensando em como definir a aparente estagnação de ideias flutuando pela cultura popular do século XXI. Nada mais apropriado do que comparar a reciclagem constante de temas e viradas de em enredo nos livros, filmes, quadrinhos e programas de TV com o infinito ciclo da vida, é claro.

(Pode cantar "Ciclo Sem Fim" do Rei Leão. Eu sei que você está com vontade.)



Muitos autores tradicionais dos círculos mais cultos e outros barões midiáticos de grande renome já definiram a produção cultural do novo milênio como um poço de mesmice, uma repetição de ideias recicladas, pré-fabricadas e usadas por conveniência comercial ou simples falta de coragem para inovar ou dar a luz a novos paradigmas.

Isso é uma grande besteira, se me desculpam a opinião sincera. Se nós somos formados pelos átomos criados pela primeira explosão de poeira cósmica que deu origem a tudo, porque nossa cultura não pode ser um mosaico de todo o processo criativo humano? Embora os planos físico e antropológico sejam duas coisas intrinsecamente distintas em estudo e compreensão, é fácil fazer um paralelo entre todo tipo de evolução humana - afinal, nós não somos formados por um só aspecto, e não seríamos quem somos sem nossos átomos ou sem nossas sinapses neurais que, graças aos átomos, permitem que criemos comunidades, leis, peças teatrais, memes de internet e vídeos de gatinhos no YouTube.

Na luz desse entendimento, afirmo que a repetição de temas, enredos, conflitos de enredo e outros argumentos que usamos para criar histórias nos diversos veículos de mídia que nos são disponíveis não é apenas natural, é parte do modus operandi humano de copiar e incorporar aquilo que admira ou gosta. Aquela máxima de que a cópia é a forma mais pura de homenagear alguma coisa pode ser taxada de plágio, mas não deixa de ter um fundo de verdade. Por exemplo, vocês sabiam que James Cameron, ao pleitear pela filmagem de seu roteiro de Titanic, simplesmente pegou alguns arquivos com fotos do navio afundado e disse "esse navio MAIS Romeo e Julieta"? O resultado final está longe de reproduzir a obra mais famosa de William Shakespeare, mas o importante é notar que a premissa partiu dela. Cameron achou mais simples explicar sua ideia usando o enredo de Shakespeare, simples assim.

E quando Avatar foi lançado, anos depois de Titanic, todas as redes sociais pipocaram comentários do tipo "ah, esse filme é uma fusão de Smurfs e Pocahontas". Vejam só, é natural para nós buscarmos elementos familiares no que lemos e vemos. É uma forma de compreendermos mais rápido, de criarmos ligações rápidas com as novidades. Buscamos similaridades porque é o diferente que nos incomoda, não o parecido (motivo pelo qual é tão difícil para a humanidade se entender com suas diferenças, é claro).

Enfim, é por isso que acusar alguma coisa de ser "não original" ou "seguir uma receita" é muita falta do que fazer. A maioria dos criadores não quer inovar; quer entreter, quer tentar dar um toque pessoal a alguma ideia que lhe agrada. Ao invés de julgá-lo por isso, basta decidir se aprecia ou não aquela história.

Aliás, é até divertido encontrar referências culturais em diversos enredos e mídias. Joss Whedon fez disso uma arte em Buffy, The Vampire Slayer, tornando menções de pop culture um elemento constante nos diálogos da série. Esse modelo foi, aliás, copiado adotado por muitos outros filmes e seriados. Um ótimo exemplo é The Big Bang Theory, que vive de referenciar TUDO que existe no mundo nerd.

A cópia e reimaginação de temas é quase uma confirmação da existência de um zeitgeist. E o século XXI encontrou uma forma muito divertida de definir e buscar essas "receitas" de histórias: os tropes.

Você sabe o que é um trope?


Em Inglês, trope pode significar várias coisas, entre elas, uso de linguagem figurativa na literatura, elemento da geometria matemática arcaica, as variações musicais entre música medieval e moderna, filosofia metafórica... Entretanto, no fim das contas, é uma palavra derivada do Grego "tropos", que significa "mudança, direção, caminho", que por sua vez deriva do verbo "tropein", "mudar". Dá para perceber que todos os significados da palavra brotam desse sentido de dinâmica.

Focando no sentido literário e criativo da coisa - porque esse é um blog literário, apesar das minhas divagações e vídeos aleatórios de músicas da Disney - desde dos anos 70, trope é sinônimo de clichè, elemento recorrente e delineação de enredo. Tudo isso junto? É, porque nós escrevemos seguindo certos parâmetros, como começo, meio e fim, e não há como fugir muito desses parâmetros se quisermos ser entendidos uns pelos outros.

No entanto, a cultura popular do século XXI levou o uso dessa a outros níveis de uso e definição, e criou o TV Tropes: uma wiki que reúne todos os temas recorrentes da cultura pop, desde livros de banca de jornal até animes e videogames.


O site é em inglês, mas a leitura é fácil e muito, MUITO divertida. Lá você encontra definição de absolutamente tudo que você nem sabia que era clichè, às vezes com imagens exemplificativas e trechos para comprovar a veracidade do trope. E o mais legal é que os tropes não são definidos como termos sépticos que se aprende nas aulas de literatura sobre Heroína Romântica Idealizada, por exemplo. São coisas do tipo "Melhor Conhecido Como Fanservice", "Cara, Cadê a Minha Recompensa?" e "Nunca Foi Aceito Em Sua Cidade Natal".

É lindo, gente. Aposto como vocês estão curiosos e, por isso, vou citar alguns dos mais conhecidos (e o meu favorito, porque sou eu quem estou escrevendo, é claro):

ROMANCE!

Relacionamento Secreto: ah, o amor. Fazendo as pessoas fazerem besteira desde sempre. Nesse trope, mocinho e mocinha (ou mocinho e mocinho, ou mocinho e mocinha, ou mocinhos e mocinhas, façam as combinatórias) entram em um relacionamento que, por alguma razão, precisam manter em segredo. A lista de exemplos do TV Tropes menciona Anakin e Padmé em Star Wars, Abrão e Sarah na Bíblia (!!!), Jaime e Cersei de ASoIaF (por razões ÓBVIAS e incestuosas), Christine e Raoul em O Fantasma da Ópera, e os seriados americanos usam e abusam dessa sem parar.

A Primeira Garota Vence: a primeira menina que o protagonista conhece geralmente vence a corrida pelo coração dele. Vale também ao contrário, com o primeiro garoto da história vencendo a menina. Vide Fullmetal Alchemist com Winry e Ed, o casal principal de Sailor Moon, Ginny e Harry em Harry Potter, Peeta e Katniss em Jogos Vorazes, Percy e Annabeth em Olimpianos, xiii, quase todo mundo está nessa, a menos que:

Segundo Amor: a menos que o primeiro amor tenha sido bem péssimo e o segundo seja a substituição perfeita. Tipo Peter Parker e Mary Jane em Spider Man! E Éowyn e Faramir, depois dela entender que o Aragorn gostava de outra em Senhor dos Anéis. Aliás, às vezes esse trope vai ao extremo com:

A Última Garota Vence: é isso mesmo, a última garota ganha. Vide James Bond, Encantada e o último Batman do Nolan.

CARACTERIZAÇÃO!

Ela Era Bonita Desde Sempre: sabe aquela nerdzinha descabelada com espinhas que é ridicularizada pela escola mas, no baile de formatura se ajeita e vira a Miss Universo. Pois é, é esse trope! Pode cantar músicas da Taylor Swift agora. Exemplos são, bem, o Patinho Feio do Andersen (aposto que você não pensou nele), Sophie de O Castelo Animado, e a clássica cena de Hermione Granger no Baile de Inverno do quarto livro de Harry Potter. Hi, Harry!

Pesadelos: formas de atormentar o protagonista E fazer a história andar ao mesmo tempo! Harry Potter usa e abusa dessa, e também temos vários em ASoIaF com esse mal, Eve Dallas da Série Mortal, Katniss em Jogos Vorazes (último livro é um pesadelo gigante, né), Eragon, etc etc etc.

Cain e Abel: quando a rivalidade de uma relação fraterna escala a níveis homicidas. Pode envolver amigos de infância, irmãos, mesmo, parceiros, wtv, muitas opções, pouco tempo. Exemplo mais famoso sendo Cain e Abel da Bíblia, mesmo, os irmãos tão fofinhos de Stardust (sabe, eram sete, morrem todos pelo trono?), muitos casos em ASoIaF e Senhor dos Anéis.

ENREDO!

Casamento Arranjado: ADORO. Praticamente o alicerce dos livros do J. R. R. Martin. Não está na trope de romance porque geralmente é um plot twist ao invés de um reforço ao casal envolvido.

Toda a seção de Tropes de Finalização é hilária. Adoro o "Momento Awesome de Coroação" e o "Bebês Para Sempre" (hello, novela da Globo?).

FAVORITO!

Minhas tropes favoritas de todos os tempos são as que lidam com personagens codependentes. EU ADORO PERSONAGENS CODEPENDENTES. Existem várias versões disso, como a Corrente da Moral (quando um personagem é a razão pela qual outro personagem se mantém moralmente "bom", hello, Code Geass, estou olhando para você), Muleta Emocional Vivente (quando um personagem é a razão pela qual outro personagem FUNCIONA em todos os níveis básicos de existência, tipo, psicológica, mental e física. É lindo quando o personagem-alicerce morre, porque outro geralmente pira completamente, mas o mais legal é quando um fica salvando o outro o tempo todo, olá, Supernatural! Olá, Série Mortal! Olá, Jogos Vorazes!), Bichinho de Estimação da Moralidade (quando um personagem meio lado negro da força adquire uma pessoa ou um bichinho de estimação que evita que ele seja completamente desalmado sem coração. A lista de exemplos desse vai longe, mas posso citar Gabrielle em Xena, e quase todos os animes e mangás que eu já li na vida) - essas todas geralmente envolvem um personagem obcecado por outro, ou superprotetor. As mais saudáveis são as do tipo "Um Garoto e seu X" (sabe, Ash e Pikachu, Eragon e Saphira, etc) e "Irmãos de Sangue", mas não vi nenhum tipo de trope romântica de codependência que não seja classificada como desordem de personalidade (Edward e Bella, por exemplo).

Ainda não existe uma seção para Codependência de Sucesso, mas eu tenho esperanças. E se ninguém fizer uma dessas, provavelmente vou atrás de escrever uma!

Eu desafio qualquer um a criar alguma coisa que não esteja pelo menos parcialmente definida em tropes. E não é um problema que seja impossível ser completamente original, muito pelo contrário! É reconfortante reconhecer os caminhos da natureza humana, e boa parte da diversão do entretenimento é a possibilidade de ver seus enredos favoritos serem renovados, reinventados ou simplesmente copiados em novas versões. Não siginifica que os criadores não possam melhorar ou conseguirem criar coisas completamente novas; significa, simplesmente, que não há como patentear ideias, e que não há problema em enveredar por caminhos já mapeados por outras pessoas.


P.S.: Mas não vale plagiar, né. A execução de uma ideia é como a digital de um polegar, ninguém tem a mesma. Uma coisa é se inspirar, querer tentar criar sua própria versão de um enredo já pensado; outra coisa é copiar a obra final que nem uma fotocopiadora. Tsc, tsc, que coisa feia.

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