Café dos Cole #10: Fora de Tempo

, em domingo, 7 de abril de 2013 ,
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Vocês aceitam um cafezinho?

Na coluna de hoje, leiam o conto que ficou em terceiro lugar no concurso cultural Conta Que Eu Apaixono, escrito pela Larissa Justo e postado com a permissão dela, é claro. =D


Fora de Tempo

Empurrando a franja para longe do rosto, Mariana ficou na ponta dos pés e tentou alcançar a janelinha de vidro da porta, emoldurada na madeira para permitir aos passantes uma visão do que havia dentro da sala. Estava claro que o marceneiro não pensara em cadeirantes, crianças e pessoas de baixa estatura ao criar o modelo daquela porta. Entretanto, considerando que o prédio ainda não tinha rampas para cadeiras de rodas, esse era o menor dos problemas do velho conservatório. Não que isso importasse, no momento. Podia peticionar à diretoria a criação de rampas para portadores de necessidades e janelinhas de vidro mais acessíveis depois que visse - e ouvisse - o que viera ali para ver. E ouvir.
Infelizmente, aquela era uma das salas que ficavam no fim do corredor, daquelas construídas em forma de “L”, acompanhando a curva até a escada para o terceiro andar. Mesmo que tivesse altura suficiente para observar dentro dela sem dificuldades, não conseguiria ver nada enquanto seu alvo estivesse no ponto cego de seu campo de visão limitado. Frustrada, Mariana se apoiou ainda mais na porta, imprensando o nariz contra o vidro e forçando os olhos até ficar quase estrábica.
Às suas costas, Letícia cobriu um bocejo e piscou para espantar as lágrimas trazidas pelo malabarismo facial.
- O que, exatamente, nós viemos fazer aqui, Nana? – ela perguntou, observando a amiga com um misto de afeto e exasperação. Ajustou melhor a mão na alça da maleta onde guardava seu violoncelo, obviamente incomodada por estar segurando todo aquele peso sem nenhum propósito aparente. – Você sabe quantos quilos esse negócio tem?
Sem tirar os olhos da janelinha, Mariana apontou na direção da parede, onde seu violino estava encostado. Suspirando, Letícia apoiou seu instrumento ao lado da maleta vermelha que havia presenteado sua melhor amiga no ano anterior. Pensando melhor, resolveu se escorar na parede, também. Aquela maluca podia ficar ali o dia todo, pendurada na porta, fazendo o que quer que fosse que estivesse fazendo, porque era mais teimosa que uma mula. Experiências passadas indicavam que seria muito melhor esperar com paciência do que tentar demovê-la do objetivo da vez.
Além disso, eventos anteriores ditavam que não era uma boa ideia largar Mariana sozinha quando estava daquele jeito. Da última vez que Letícia deixara-a por conta própria naquele tipo de situação, a doida tinha conseguido quase guilhotinar a própria cabeça com um fio de cobre de uma viola. Então, sair dali sozinha estava fora de questão.
- Pelo menos me explica qual foi a bola da vez? – Letícia questionou, dando de ombros e ajeitando a renda do vestido, resignada.
Uma veia irritada começou a pulsar na testa da violinista, que esmagou ainda mais o rosto contra a porta, como se estivesse tentando atravessá-la a là Gasparzinho.
- Daniel. Monteiro. Franca. – Mariana rosnou, fazendo uma careta.
Letícia nunca tivera coragem para contar à amiga que aquela careta não funcionava – os grandes olhos castanhos e o nariz pequeno faziam com que aquele retorcer facial a deixasse parecida com a Sininho ao invés do Hannibal Lecter. O cabelo longo, escuro e lustroso, preso em uma trança, também não contribuía em nada com a tentativa de intimidação. Muito pelo contrário; deixava a moça aparentando ser muito mais jovem do que os vinte e três anos que acabara de completar.
- O que é que tem ele?
Dessa vez, Mariana virou a cabeça para encarar sua melhor amiga com fogo nos olhos.
- O que é que tem ele? O que é que— Leti. Leti, Leti, Leti.
- Alguém já te disse que você fica parecendo uma música do Black Eyed Peas quando fala desse jeito?
Ignorando a alfinetada, Mariana prosseguiu:
- Vou te explicar “o que é que tem”. Começando do começo: lembra quando a Múmia Nestor finalmente foi embora?
Mestre Nestor era o antigo Primeiro Violino na Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e estava beirando os oitenta anos. Apesar de inegavelmente talentoso, era um senhor rabugento que não conseguia mais acompanhar o ritmo das peças musicais por causa da artrite. O apelido mais comum para o velho era Múmia, mas o namorado de Letícia costumava dizer Nestor era uma versão musicalmente sensível do Professor Binns de Harry Potter.
Como a explicação de Mariana incluía o nome de Nestor, Letícia já tinha alguma ideia do que se tratava. Preparou o espírito para ouvir, mais uma vez, a ladainha que a violinista vinha entoando nos últimos quatro anos.
- É claro que eu lembro. Você até comprou um espumante para comemorar. – a violoncelista retrucou, suspirando.
- Exatamente, Leti. Eu comprei um espumante. Sabe por quê? Porque era eu a próxima da fila, Leti. Não tinha nenhum outro violino melhor do que o meu depois que aquele projeto de Tuntankamon resolveu voltar para a tumba. E aí! – Mariana exclamou, espalmando com força a porta da sala de prática. – Aí me aparece esse sujeitinho desconhecido, que pula direto da Orquestra Sinfônica de Londres para Minas como se respirar um pouco do ar da Europa fosse requisito necessário para liderar a minha orquestra!
Nem um pouco surpresa com a explosão, Letícia começou a se preparar para acalentar a obsessão de sua melhor amiga. Bruno, seu namorado e oboísta na orquestra, costumava aconselhá-la a deixar Mariana fazer o que bem entendesse, porque era problema dela. Mas isso era o pensamento típico dos oboístas, que eram poucos e geralmente procurados o suficiente para não sentirem muito a pressão da concorrência. O que não era o caso de Nana, que viera de uma família bem humilde de São Lourenço, lutara com unhas e dentes por uma bolsa no conservatório e estava se virando sozinha em Belo Horizonte desde os catorze anos.
Mariana dera o sangue por um espaço na Filarmônica. Literalmente: ela treinara tanto que seus dedos ficaram em carne viva. As cicatrizes e calos que existiam nas mãos dela eram permanentes, e expostos para o mundo com muito orgulho. Vendo toda a disposição da moça em subir na cadeia alimentar da Música Clássica, Letícia só conseguia sentir orgulho e admiração – mesmo que sua amiga fosse um exemplo perfeito da famigerada competitividade dos violinistas.
- Que eu saiba, os Franca vêm de uma linhagem longa de músicos, Nana. A avó dele cantou em todas as orquestras de Paris, o avô dele comandou a Brasileira por muito tempo e, de acordo com o Bruno, o menino toca desde os três anos de idade, com os melhores dos melhores. Ele é uma cria do cenário musical europeu; não me espanta que seja bom o bastante para tocar aqui, nessa vaga. – Letícia interviu, tentando diluir o brilho assassino dos olhos da outra. – Eu sei que você se esforçou muito, mas ele também é muito bom.
Letícia quase pôde ouvir o bom senso de Mariana rachar estrondosamente.
- Você ainda nem ouviu nada dele, criatura! E olha, ele pode ser até a segunda encarnação do Paganini, eu não. Me. IMPORTO. Quem passou os últimos dois anos dando a vida por essa vaga, Leti?
Ah, não. Lá vinha a retórica. Letícia suspirou, mais uma vez. Pelo menos estava oxigenando bastante os pulmões.
- Você, Nana.
- Quem cobriu todas as apresentações de cordas que o velho Nestor deixou de comparecer quando estava frio ou chovendo, o que quer dizer quase todos os dias do último ano?
- Você, Nana.
- Quem é que—
- Certo, Nana, eu já entendi, não precisa pirar. Todos os membros da Orquestra sabem que você merece a vaga. Só que o Maestro achou melhor trazer um gênio aclamado por gente do exterior, e você não pode fazer nada a respeito.
Abrindo a boca em um esgar de indignação, Mariana preparou-se para iniciar um novo discurso. Entretanto, a porta onde a violinista estava se escorando abriu, salvando os ouvidos e a paciência de Letícia. Infelizmente, a referida porta abria para dentro da sala, o que significava que, ao ser escancarada, deixara de funcionar como ponto de apoio do corpo de Mariana, que desabara para trás, aterrissando no próprio traseiro com um grito surpreso.
Ao invés de colocar as mãos para amainar a queda, a moça vencera o reflexo natural do corpo e segurara as mãos junto ao ventre para evitar que elas batessem no chão e machucassem, impedindo-a de tocar. Ou seja, o impacto no traseiro provavelmente doera o dobro.
Letícia fez uma careta em consideração à dor da amiga e ergueu os olhos para ver quem havia aberto a porta. Do alto de seus nada impressivos de um metro e meio de altura, o Maestro encarava a violinista prostrada aos seus pés com uma expressão curiosa. Por trás dele, vazava o choro sentido de um violino.
Assim que parou de gemer, Mariana virou o rosto para cima e encarou o Maestro com um olhar tão sentido e choroso quanto o som do violino que tocava na sala. Como de praxe, ignorou as formalidades e falou logo o que estava pensando:
- Isso é “O Trilo do Diabo”? – questionou, ainda com a cabeça virada para cima.
O Maestro balançou a cabeça, obviamente conformado com a atitude bizarra da violinista. Letícia cobriu com uma tosse seca a risada que ameaçava borbulhar de sua garganta e se aproximou da amiga para ajudá-la a se levantar.
- Isso mesmo. O Senhor Franca está praticando um solo para sua apresentação à comunidade. É uma prova do bom gosto do rapaz escolher Tartini como primeiro cumprimento aos ouvintes, não acha?
Mariana não se importou em esconder a falsidade de seu sorriso ao responder:
- Bastante apropriado, sim, que ele toque “O Trilo do Diabo”.
Erguendo as sobrancelhas, divertido, o Maestro abriu mais a porta, obviamente indicando que as duas deveriam entrar.
- Foi bom ter encontrado vocês duas agora. Muito propício, muito propício. Quero incluir um trio de cordas na apresentação do jovem Franca à sociedade mineira, e vocês são justamente quem eu preciso para fechar três. Estava pensando em Beethoven. Nós vamos discutir as nossas opções assim que essa música terminar.
Meio mancando, meio saltitando, Mariana se arrastou até a curva da sala, obviamente escutando a proposta do Maestro com apenas parte de sua atenção. Todo o resto de sua mente estava focado na música que ecoava pelas paredes.
A “Sonata Nº 2, Op. 1” de Giuseppe Tartini[1] – comumente conhecida como “O Trilo do Diabo” – era uma das músicas mais desafiantes do repertório de qualquer violinista. A peça exigia quase todas as técnicas clássicas do instrumento. Mariana vinha tentando tocar aquela música desde os dezessete anos, e ainda tinha muitos problemas em atravessar o Andante sem ter que repetir algumas partes.
Daniel Franca não tinha esse problema.
Era um rapaz alto e magro, de tez morena e cabelos negros e cacheados caindo sobre as orelhas. Mesmo usando calça e camisa social, não conseguia ocultar o quão jovem era; no máximo um ou dois anos mais velho do que Mariana e Letícia. Suas mãos compridas e bem feitas acariciavam apaixonadamente as cordas do violino avermelhado, arrancando dele as notas desesperadas do final da música mais famosa de Tartini.
Mariana agarrou a mão de Letícia e cravou seus dedos (sem unhas compridas) no braço da amiga.
- Ele está praticando em um Stradivarius[2]? É isso que eu estou vendo? – Mariana sibilou.
- Você sabe muito bem que é melhor praticar no instrumento com o qual tocamos nas apresentações. Se o dele é um Stradivarius, qual o problema de tocar nele, uai?
- Traidora. – a violinista resmungou.
- Você está procurando motivos para odiar o cara, Nana. Certo, ele veio e tomou a sua vaga, mas a culpa não é dele. E você está jogando fora a oportunidade de apreciar toda aquela beleza espanhola ali, quero dizer, você já viu o nariz dele? E aquelas sobrancelhas? E aquela bun—
- Cala a boca, pelo amor de Deus. Cê tá ouvindo o que cê tá dizendo? – Mariana tapou a boca da amiga com a mão livre, horrorizada. Letícia notou, divertida, que o sotaque interiorano da amiga estava ficando mais carregado, como costumava acontecer quando ela ficava transtornada. – Confraternizar com o inimigo é uma coisa, mas confraternizar com outros violinistas é impossível.
- Por que os egos de vocês não cabem no mesmo recinto?
A resposta de Mariana foi uma tentativa quase bem-sucedida de asfixiamento. A violoncelista teve a vida poupada pelo encerramento da música, que foi uma deixa para que o Maestro chamasse-as para apresentá-las à sua nova aquisição.
Aproximando-se do pequeno tablado onde Daniel Franca aguardava, Mariana lutou para não deixar os olhos desviarem do rosto dele. Porque ela não seria como Leti. Não, ela não checaria se o corpo dele conseguia encher apropriadamente uma calça de linho. E não olharia para as mãos dele, ou a forma reverente como elas seguravam o violino (que merecia toda a reverência do mundo, é claro, era um Stradivarius).
O ruim era o fato do rosto angular e charmoso do rapaz distraí-la tão bem quanto o resto dele.
- Meninas, esse é o Senhor Daniel Franca. Ele será o nosso Primeiro Violino de agora em diante. – Daniel sorriu, assentindo à informação dada pelo Maestro. – Senhor Franca, estas são a Senhorita Ferreira, uma de nossas mais brilhantes violoncelistas, e a Senhorita Albuquerque, que estava cotada para a sua posição antes que o senhor aceitasse voltar para o Brasil.
O sorriso de Daniel tornou-se mais aberto e simpático enquanto ele se aproximava para apertar as mãos das recém-chegadas. No entanto, a mente de Mariana travou, repetindo a frase “estava cotada para sua posição” em loop infinito - motivo pelo qual a moça quase esmagou a mão do outro violinista quando foi sua vez de cumprimentá-lo.
Daniel encarou-a com estranhamento depois de finalmente libertar a mão do aperto constritor. Em resposta, Mariana ofereceu a ele um sorriso digno de um tubarão branco do Pacífico.
- É um prazer conhecê-lo, Senhor Franca. – Letícia apressou-se em dizer, tentando quebrar a tensão entre os outros dois jovens da sala enquanto pisava com força no pé da amiga.
Tirando o olhar da violinista por alguns instantes, Daniel virou para Letícia e dirigiu a ela, mais uma vez, seu sorriso charmoso.
- Só Daniel, por favor. Não sou tão mais velho do que vocês. Você é Letícia Ferreira, namorada do Bruno?
A voz dele era rouca e, apesar de ter perfeita dicção no Português, soava em um sotaque indefinido, uma cadência estranha, fruto de anos habituado a conversar em línguas estrangeiras.
Mariana lembrou que ainda estava na metade de seu curso de Francês e ficou com mais raiva ainda.
- Ah, sim. Ele comentou que vocês já se conhecem, da Espanha.
- Ele ficou na minha casa quando passou uma temporada em Madri. Foi bom revê-lo. – Daniel deu de ombros, e voltou a encarar Mariana. – Você deve ser Mariana Albuquerque, certo? O Maestro comentou que é muito boa.
- Aparentemente, não sou boa o bastante. – foi a resposta imediata de Mariana, destilando rancor o bastante para inundar a sala.
Daniel arregalou os olhos. Depois, sorriu, mostrando os dentes. Letícia tentou não grunhir de irritação ao ver o desenrolar de uma tragédia anunciada.
- É o que veremos.
A reação escandalizada de Mariana foi interrompida quando o Maestro bateu palmas e falou com riso em sua voz:
- Bem, já que estamos todos aqui, é hora de seguirmos para a primeira reunião do Senhor Franca com a orquestra! Vamos todos para o auditório. É uma pena eu não ter conseguido o salão do Museu para isso, mas, como é um evento informal, vai servir.
Os três jovens foram empurrados para fora da sala, e Letícia praticamente arrastou Mariana para longe de Daniel, já que a violinista parecia prestes a avançar e arrancar a jugular dele com os dentes.
O rapaz, por sua vez, parecia muito confortável em ser o alvo óbvio do ódio de sua nova colega. A violoncelista agradeceu a todos os deuses e espíritos do mundo quando os quatro finalmente chegaram ao auditório do conservatório, onde ela poderia sentar Mariana longe de sua presa. Escolheu a última fileira de cadeiras acolchoadas e optou pelos lugares mais próximos à saída de emergência. Por via das dúvidas.
Enquanto o Maestro subia no palco e iniciava a reunião, Mariana virou para Letícia com uma expressão febril que a deixava com ares de psicopata.
- Eu quero degolá-lo com o arco do meu violino.
- Você não consegue nem descascar batatas, Nana.
- Você viu o que ele fez? Você viu a cara dele?
- Bem, você não foi exatamente educada e cordial, uai. O que esperava?
- Que ele fosse embora para a Espanha, largasse o violino e decidisse virar toureiro. E aí um daqueles touros bombados faria um espeto dele, e eu ficaria vendo a cena pelo YouTube toda vez que precisasse me alegrar.
- Você. É doente.
Quando o Maestro chamou Daniel para o alto do palco e começou a recitar o quanto ele era bom, competente e a melhor adição à Filarmônica de Minas desde sempre, Mariana se encolheu em sua cadeira acolchoada e ficou resmungando coisas do tipo “engomadinho” e “ladrão de tumbas” até o rapaz descer do palco.
A situação não melhorou muito daí em diante, porque Daniel optou por sentar na cadeira ao lado de Mariana.
Letícia olhou para o sorriso satisfeito do rapaz, olhou para os dedos brancos de Mariana apertando os braços do assento, e levantou.
- Não me responsabilizo pela sua vida, Daniel. Você parece gostar de viver perigosamente. – ela comentou, incrédula, antes de virar para a amiga. – Nana, vou sentar com o Bruno. Chame quando precisar esconder o corpo.
E saiu quietamente da fileira onde estavam, seu cabelo curto e enrolado balançando a cada passo.
Mariana respirou fundo. Uma, duas, três vezes. Ordenou suas mãos a largarem a cadeira, porque poderia acabar forçando demais os dedos e tendo dificuldade para tocar, depois. Já estava bem mais calma, ignorando sumariamente o outro violinista, quando um dos violistas passou entregando as partituras do próximo projeto da orquestra.
Absorta nas linhas complexas da peça que o Maestro havia escolhido – Tchaikovsky, porque, se dependesse do Maestro, nada poderia ser simples e fácil – quase não ouviu quando Daniel falou, ao seu lado.
- Então, você me odeia.
A mão que segurava a partitura fechou automaticamente, amassando o papel. Contando até dez (em Português, e depois Francês, e depois Alemão), Mariana abriu os dedos e dedicou-se em tirar todos os vincos das folhas, pobres e inocentes vítimas.
- Porque você seria o Primeiro, e eu vim de fora só para acabar com a sua alegria.
Dessa vez, estava mais preparada. Não reagiu. Apenas olhou para frente, procurando ouvir cada palavra que o Maestro estava dizendo sobre “O Quebra Nozes” e buscando ignorar a risada silenciosa que chacoalhava o rapaz sentado ao seu lado.
- Sei como você se sente. Mas não vou pedir desculpas. A oportunidade surgiu, e eu agarrei. Você teria feito o mesmo.
O pior era: ele estava certo. Ela teria feito a mesma coisa. Entretanto, não estava disposta a sentir simpatia por ele. Não mesmo.
- Alguém já te disse que você parece o Bambi?
E aí, toda a calma friamente coletada por Mariana quebrou como a nota de um saxofone entupido.
- Dá pra calar a boca?
Para azar dela, a pergunta foi feita em um daqueles momentos em que todos do lugar param de falar e o silêncio faz com que até as vozes mais moderadas pareçam cortar o ambiente.
- Algum problema, Senhorita Albuquerque? – o Maestro perguntou, erguendo as sobrancelhas.
Toda a orquestra virou para encará-la. Letícia, de seu lugar na segunda fileira, bateu a mão na testa.
Mariana sentiu todo o sangue do corpo subir para suas bochechas, assolada por uma vergonha esmagadora. Balançou a cabeça freneticamente, não confiando na própria voz para dar uma resposta apropriada. O Maestro sorriu para ela e piscou um olho conhecedor para Daniel antes de voltar à palestra.
Mal a última cabeça virara novamente para o palco, a moça sentiu uma leve cutucada no ombro direito. Fechou os olhos e começou a revisar mentalmente o nome de todas as peças de Beethoven, decidida a não responder. Após alguns minutos, ele parou. O que era muito bom, porque Mariana não ia levantar e trocar de lugar. Isso seria uma clara admissão de derrota.
Quando finalmente abriu os olhos de novo, a moça olhou de soslaio e viu que Daniel estava tomando notas, rabiscando alguma observação no canto da partitura. Sentiu-se estranhamente desapontada; estava esperando mais tenacidade dele. Balançou a cabeça para dispersar o sentimento e puxou uma caneta da bolsa para anotar o que o Maestro estava dizendo sobre o pesadelo que era a métrica bizarra de Tchaikovsky.
Ainda não tinha conseguido prestar a devida atenção nas palavras do mestre quando uma partitura idêntica à sua escorregou em seu colo. Mariana olhou para o lado, mas Daniel estava olhando para frente, parecendo muito compenetrado.
Colocou o papel novo por cima dos seus e passou os olhos sobre o que estava impresso. Acima do cabeçalho, havia uma mensagem, escrita em uma letra pequena e elegante:

Por que você não para logo de me odiar para que eu possa te convidar para sair?

Ah.
Bem.
O que ele esperava que ela fizesse com isso?
Está certo que ele era bonito, tocava bem (não exatamente melhor do que ela, mas bem) e sabia falar cinco línguas – cumprindo alguns dos requisitos que ela tinha para deixar um cara dar em cima dela – mas. Ladrão de Tumbas.
Tentando não pensar muito sobre a atração que talvez estivesse sendo despertada por aquele pedido tão sincero e direto, a moça pegou a própria caneta e escreveu uma resposta:

Porque você é o FILHO DO DEMÔNIO que o Maestro pensa que toca melhor do que eu.
E, convenhamos, relacionamentos entre violinistas nunca funcionam.

Sem olhar para Daniel, Mariana jogou a folha sobre as pernas dele. Seus ouvidos, entretanto, estavam totalmente voltados para os ruídos que ele fazia, e ela ouviu quando a caneta dele deslizou sobre o papel, redigindo outra resposta:

O que você quer que eu faça, pare de tocar para que você se sinta menos inadequada? E, por que não funcionaria?

Com uma risada de escárnio, Mariana driblou as notas insanas da partitura para escrever mais.

Claro que não, seu idiota. Não teria graça se você desistir antes de eu limpar o chão com a sua cara, depor você do trono e toma-lo para mim.
E, você é um violinista. Sabe como é. O ego de um violinista é um recém-nascido que precisa de cuidado constante. Dois violinistas juntos é, basicamente, como ter um bebê tentando cuidar de outro: um desastre. Abandono de incapaz. Termina em morte e tragédia.

Virou de lado para devolver o papel. A mão de Daniel já aguardava a devolução, e ele estava sorrindo, embora ainda olhasse para a direção geral do palco. Menos de um minuto depois, a partitura voltou para as mãos de Mariana, que sequer fingiu não estar interessada na conversa inusitada.

Ótimo, porque eu nunca faria isso, nem por esses seus olhos de Bambi.
Discordo da sua percepção sobre relacionamentos entre violinistas.
Meus pais são violinistas e estão casados há trinta anos. Não tentam se matar mais do que acontece com outros casais. Muito pelo contrário, eles nunca discutem por causa de trabalho, porque pensam da mesma forma.

Rolando os olhos, Mariana sentiu sua irritação dissolver como se fosse a última nota de uma peça particularmente violenta. Talvez não devesse odiar Daniel tão abertamente. Afinal, como dizia o ditado: mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda. Além disso, não era apropriado agir como uma psicótica assassina em ambiente de trabalho, isso atrapalharia o rendimento da orquestra, e essa era a última coisa que ela queria.
Resolveu oferecer a bandeira branca e aceitar sua posição de Vice-Rei. Por enquanto. E sem adoçar demais, obviamente.

Quer saber, é o seguinte: no dia em que eu tocar melhor do que você, pode me chamar para sair.

Pronto. Uma declaração inocente, que agradaria o ego dele e tornaria as coisas mais fáceis. Satisfeita com a forma como lidara com a situação, dobrou a partitura e colocou-a em cima dos outros papéis dele.
A resposta veio em segundos:

Sala Três, segundo andar. Dueto. Quem chegar primeiro escolhe a peça que o outro vai tocar.

Enquanto ela lia, Daniel levantou, levando suas partituras e a maleta com o Stradivarius em direção à saída do auditório. Mariana ficou temporariamente distraída com a reviravolta inusitada dos eventos, abrindo e fechando a boca, como um peixe, por vários segundos.
As portas de vai-e-vem da saída já estavam balançando quando o espírito nem um pouco esportivo da violinista finalmente tomou conta dela, fazendo-a recolher todos os pertences e correr para a saída com um sorriso predatório no rosto.
Daniel estava esperando por ela do lado de fora, sorrindo abertamente, com covinhas nas bochechas. Mariana não conseguiu evitar sorrir de volta. Ela deu alguns passos tímidos na direção dele antes de começar a correr, sem olhar para trás, tentando conseguir alguma vantagem no percurso até a sala de prática.
A risada surpresa dele acompanhou-a pelo corredor.



[1] O Trilo do Demônio, nome popular da Sonata no. 2, Op. 1 do compositor Giuseppe Tartini, é famosa por sua dificuldade e por sua história: Tartini diz ter sonhado que oferecia o próprio violino a Diabo, que pegou o instrumento e tocou essa música. Ao acordar, o compositor buscou “lembrar” da música do sonho e coloca-la no papel.
[2] Stradivarius é uma das mais famosas marcas de instrumentos de corda do mundo, criada por Antonio Stradivari (1644-1737). Atualmente, existem cerca de 650 violinos desse tipo no mundo.

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