Café dos Cole #8: Doce amor

, em domingo, 24 de março de 2013 ,
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Aquele momento em que a dona do blog desenterra uma coluna que não é postada desde dezembro de 2011.

Vocês aceitam um cafezinho?

Na coluna de hoje, leiam o conto que ficou em primeiro lugar no concurso cultural Conta Que Eu Apaixono, escrito pela Janaína Barreto e postado com a permissão dela, é claro. =D


Doce Amor

Havia acabado de sair da cama e esse era um bom indício de que seria uma segunda-feira daquelas. Isso porque eram 7 da manhã e eu deveria ter saído às 5:30! Sim, é claro que foi culpa da overdose de sorvete — Um pote... Está bem, foram dois potes e um bolinho — durante mais uma sessão entre riso e choro de Bridget Jones. Colin Firth sempre me encanta e a cada colherada, eu suspiro mais e mais. Coisas que o açúcar e a carência de um domingo à noite podem fazer a uma mulher. Tomei um banho rápido agradecendo aos céus por não estar em um “badhair day”, pois esse atraso já era suficiente. Engoli umas torradas molengas com a já tradicional caneca de chá enquanto enfiava minhas tralhas na mochila, coloquei a comida de Nicolau, meu preguiçoso vira-lata, e passei ventando pelas escadas do prédio. Eu não esperava um dia muito produtivo e estava me preparando para ficar no balcão justamente no horário que ninguém queria: o dos clientes atrasados, apressados e mal-humorados. Felizmente, eu logo veria que coisas boas podem acontecer mesmo quando se anda com dois pés esquerdos.

***

Cheguei à frente da padaria, respirei fundo e entrei de mansinho. É óbvio que Seu Germano não ia me deixar passar numa boa.
— Ah, olá, Alice! Que prazer encontrá-la tão cedo! — Junto ao tom sério, ele me olhava com olhos brincalhões que eram sua marca registrada. Esse jeito de dar bronca ainda brincando, sempre me deixou nervosa e não pude deixar de virar um pimentão. Eu sabia que meu atraso não ia sair barato, pois mesmo fazendo o estilo “amigo de todos”, ele ainda era justo.
— Hm, oi, Seu Germano! Bom dia! — A essa hora eu já estava passando as mãos nervosamente por meus cabelos, sem saber onde me meter — Vou correndo lá pra trás, tá?
Entrei na área dos funcionários, onde já estavam todos a todo vapor e comecei a receber os avisos.
— Oi, Alice, bom dia! Pronta pra enfrentar os melhores clientes hoje, hein! — Sorriu Cecília.
— Ih, Alice, eu não queria estar no seu lugar hoje… A coisa anda feia desde cedo. Manhã pós-carnaval, estão todos com pressa e já esperando o próximo feriado, sabe como é. — Felipe gritou lá da cozinha. — Até a Tereza que está sempre esbanjando paciência e amabilidade está tendo dificuldade em manter a cortesia e o sorriso. Não é Tereza?!
Nessa hora, Tereza entrou, parecendo exausta mesmo sendo tão cedo.
— Sim, Felipe, é verdade… A coisa hoje não está boa, não está mesmo. Mas o bom é que vou ter a Alice pra dividir isso tudo comigo, não é Alice?! — Tereza me olhou e deu as piscadelas engraçadas de quando fazia suas piadinhas.
— É, é isso mesmo… — Maldito sorvete, maldito Mark Darcy! Entre suspiros, lavei e sequei mãos e braços. Coloquei touca e avental e fui enfrentar esse que, até agora, já estava parecendo o dia mais longo da minha vida.

***

Passei pela portinhola do balcão e senti um arrepio. A fila estava enorme. Algumas pessoas mexiam em seus celulares parecendo desesperadas, outros contavam quantos haviam à sua frente e outras pareciam exasperadas com a demora no atendimento. Eu gosto do meu trabalho, sempre amei pães e doces (a noite passada que o diga…), mas trabalhar com pessoas é sempre difícil. Quando se é tão tímida quanto eu, multiplique essa dificuldade por 10!
Fui ao meu lugar e gritei “próximo!”. Felizmente, comecei bem, pois era uma cliente antiga que chegava para ser atendida. Dona Nita é um amor e louca por doces como eu.
— Bom dia, Dona Nita! Em que posso ajudá-la hoje?
— Olá, Alice, meu bem. Chegou atrasada, hoje, não é?! — Dona Nita era cliente antiga, já sabia como funcionava o “sistema Germano” — Eu vou bem e você? Prepare-me meia dúzia daquelas tortinhas de limão de sempre. Vou receber Patrícia e Guilherme lá em casa. Quero ter algo gostoso para a sobremesa hoje. — Patrícia e Guilherme são, respectivamente, filha e genro de Dona Nita que, vez por outra, visitavam-na pra ver como estão as coisas na velha casa, onde Dona Nita viveu com o marido até o seu falecimento há alguns anos. Graças a Deus eles têm essa preocupação, pois ela deve se sentir muito sozinha sem seu companheiro de tantos anos. Sei disso porque Dona Nita me pegou uma vez na saída do meu turno e me arrastou (literalmente) até sua casa para tomarmos um chocolate com bolo. Ela me contou tudo sobre sua vida e foi assim que nos tornamos amigas.
— Claro, Dona Nita! Como estão os dois?
— Muito bem, mas ainda insistindo em ter um cachorro ao invés de me dar um netinho. Dizem que filho não é pra todo mundo e que treinar com a Belinha é uma boa, antes de tomar “a grande decisão”.
— Acho que eles estão certíssimos. A coisa anda complicada e, além do mais, ter um bebê ainda é algo bem caro. — Entreguei a embalagem com as tortinhas, embaladas na caixa personalizada da Sétimo Céu.
— É, você tem razão, meu bem. Bom, deixe-me ir andando! Já posso sentir os olhares de fúria nas minhas costas! — Ela deu uma piscadela, pegou as tortinhas e foi em direção ao caixa.

Essa foi a primeira e última cliente bacana até as 10h da manhã. Efetuei vendas sem glamour do tipo “Só um pão, por favor. E rápido!”. Foi uma sucessão de pessoas impacientes e nada interessadas em esperar. Respirei fundo e tentei me consolar com o fato de que às 14:00h eu estaria livre e na manhã seguinte voltaria à área de produção de tortas e bolinhos, engordando à cada prova de cobertura e novos doces do Felipe. Ah, como o açúcar das manhãs me fazia falta! Foi durante esse pensamento que ele, então, passou pela porta balançando a sineta da entrada. Tereza já tinha me falado desse cara. Leo, era o nome dele, fazia o tipo esquisitão-nerd-sexy. “Muito educado e totalmente o seu tipo!”, ela dizia. Confesso que não acreditei. Mark Darcy era o único que tinha lugar no meu coração, atualmente — totalmente inatingível, eu sei —, mas vendo Leo, puxa, eu tinha mesmo que dar o braço a torcer. Olhei para Tereza, que confirmou a minha certeza e, em um gesto discreto, me incentivou a ir atendê-lo ao balcão.
— Bom dia, senhor. Posso ajudá-lo? — Dei o meu melhor sorriso, tentando não parecer nervosa.
— Bom dia — ele apertou os olhos por trás dos óculos de grau, para ler meu nome na camiseta —, Alice. E é Leo, por favor.
— Certo, em que posso ajudá-lo, Leo?
— Que doce você recomenda para presentear alguém especial? — Tentei não parecer chateada, mas essa frase me desanimou. É claro que ele tinha namorada. Olhei de canto de olho para Tereza que, mesmo atendendo a outros clientes, estava, obviamente, ouvindo a “conversa”, e pareceu tão decepcionada quanto eu.
— Hm, os cupcakes sãos os pedidos que mais saem quando o assunto é presente… Há estes coloridos e estes de chocolate com confeitos de coração.
— Acho que os coloridos seriam mais apropriados. Ela é alegre, mas não gosta de meiguice demais. Prepare 5 destes aqui, todos de cores diferentes, por favor. — Corri para pegar uma caixinha e fui separando os bolinhos enquanto pensava “Estes são os meus favoritos. Boa escolha, Leo”.
— Aqui está. Foi uma ótima escolha, tenho certeza que ela vai gostar.
— Espero que sim. Obrigada, Alice. Até logo!
Enquanto tentava me recompor, Tereza saiu do seu posto e deu dois tapinhas nas minhas costas. Apenas assenti, pensando que, talvez, não era pra ser.

***

Durante os próximos meses, comecei a perder o horário quase todas as manhãs. É claro que não era intencional, mas depois de vários atrasos, Seu Germano me mudou de horário de uma vez e passei a ficar no atendimento todos os dias. Mesmo sentindo falta dos doces, por um lado, eu, secretamente, estava gostando. Tinha oportunidade de fofocar com Tereza durante o horário de menos movimento, o que sempre me divertia, e me encontrava mais vezes com Dona Nita. Ah, e também podia ver o Leo sempre que ele aparecia. Ele não era um cliente frequente, vinha vez ou outra, sempre às sextas-feiras e, ao entrar na padaria, me procurava ao balcão. Acho que ele havia percebido o meu gosto pelos doces e por isso sempre me pedia indicações “para uma pessoa especial”. Eu gostava de atendê-lo, mas separar os doces para outra pessoa me deixava triste e, o mais estranho, com um pouco de ciúmes. Talvez eu tivesse absorvido a ideia de Tereza e, quem sabe, começado a me interessar pelo rapaz educado e diferente que era Leo. Todo mundo sabe que nada agrada mais uma mulher do que ganhar doces e chocolates. Bem, funcionaria pra mim.

***

Mais uma sexta-feira chegou, e nessa semana, eu teria minha folga semanal bem no sábado. Eu aproveitaria para ir à praia e também para colocar minha leitura em dia. Fazia algum tempo que eu não tinha ânimo para ler, mas acho que um romance leve e açucarado era exatamente o que estava precisando. No meio do meu devaneio, vi Leo entrar. Ele estava de camiseta simples, sem estampa ou desenho e uma calça jeans meio desbotada. Duvidava que ele estivesse indo trabalhar hoje, pois parecia mais descompromissado do que nunca, embora ele sempre tivesse esse ar despojado de pessoas que trabalham com criação ou algo assim. Grudei o “sorriso pra o Leo” no rosto e fui atendê-lo. — Bom dia, Leo. O que vai ser hoje?
— Bom dia, Alice. — Olhando para o lado, ele deu um tchauzinho para Tereza. — Ah, o de sempre, por favor. Os cupcakes coloridos.
— Está bem, já volto. — Pouco depois, voltei com a caixa e falei. — Hoje tinha um sabor novo, com uma cor diferente também. Coloquei na embalagem no lugar do de baunilha, tudo bem?
— Sim, tudo bem. Talvez Karen já estivesse enjoando dos mesmos sabores, apesar de me segredar que adora cada vez que levo essas coisinhas pra ela. Aliás, obrigada por isso, Alice. O mérito é todo seu. Até logo.
— Até logo…
Karen… Então era esse o nome dela. “Moça de sorte”, pensei.

***

Era mais uma tarde quente e eu chegava em casa com o almoço pronto que pegava sempre na padaria. Nicolau me esperava impaciente, visto que tinha limpado a tigela da ração.
— Seu comilão! Dormindo o dia inteiro e ainda comendo desse jeito, onde você vai parar?!
Ele não era um cão exatamente jovem e eu me preocupava com ele, pois não podia dar-lhe tanta atenção como eu gostaria. Havia, é claro, os nossos passeios ao anoitecer, mas cães não são animais solitários e passar a manhã e parte da tarde sozinho não devia ser bom pra ele. Eu tentava compensar, dando-lhe toda atenção que podia e acho que conseguia compra-lo, pelo menos um pouco. Reabasteci a tigela, coloquei minha comida no micro-ondas e fui tomar banho. Ainda de tolha, cai no sofá-cama lambendo os dedos sujos de comida e fui jogando os ossinhos de galinha pra Nicolau que corria logo pra sua cama e dedicava-se, então, à exigente tarefa de roê-los até o fim.
Lavei as mãos e vesti meu pijama. Era hora de ler um pouco. Eu queria voltar ao hábito e esse era o melhor horário pra ler sem correr o risco de cair no sono. Peguei minha mochila e, enquanto procurava o livro (sempre o levava comigo, para ler entre as viagens de ônibus, o que nunca deu certo, pois eu sempre dormia nas primeiras frases), encontrei um pacote bem pequeno e muito bem embalado. Com certeza não era meu, mas se estava na minha bolsa... Achado não é roubado. A curiosidade foi maior e abri. Era um cupcake. Ah, fazia tanto tempo que eu não comia um doce de verdade! Depois de começar a atender os clientes, eram raras as minhas idas ao "santuário" de Felipe. Soube que ele estava fazendo novas experiências de massas e coberturas. Talvez Tereza tivesse colocado ali pra mim, afinal, doce era comigo e, modéstia à parte, provavelmente eu o avaliaria melhor que qualquer um na padaria.
Voltei ao sofá-cama e comecei a analisar o bolo. Era pequenino, confeitado com capricho. Tinha uma cobertura azul cheia de pontinhos mais escuros que só podiam ser açúcar e havia algumas flores pequenas jogadas desordenadamente sobre ele. "Dessa vez você caprichou, Felipe", pensei. Talvez não fosse tão bom quanto lindo, mas conhecendo o nosso confeiteiro, eu sabia que essa hipótese era pouco provável. Finalmente mordi. Uma explosão de sabores invadiu minha boca. Era doce na medida certa, a cobertura era cremosa e a massa era fofa e leve, o recheio tinha um toque cítrico. Era o bolo mais delicioso que eu já havia comido! Extasiada por essa maravilha, peguei o celular e enviei uma mensagem à Tereza: "Obrigada pelo cupcake. Se ainda estiver aí, diga a Felipe que eu o amo e que dessa vez ele acertou em cheio. Estou nas nuvens!" Segundos depois recebi a resposta: “Claro que digo, mas, assim por curiosidade, do que você está falando?”

***

Na manhã seguinte, comecei a rotina na padaria e, assim que pude, conversei com Tereza sobre o tal cupcake.
— Mas Tereza, estava em minha bolsa. Como não foi você?!
— Ora, por que seria eu? E por que eu não te avisaria?
— E quem mais seria? O Felipe está sempre atolado nas panelas e com as mãos sujas de coberturas e massas. Cecília agora fica sozinha com os pães. Faça as contas e veja quem sobra.
— Ai, Alice, mas não fui eu, já disse. E Felipe falou que, pela descrição, a criação não era dele, embora ele tenha gostado que fosse, até onde eu sei.
— Está bem, está bem… Melhor deixar pra lá.

Os dias foram passando e nada de novo aconteceu. “O caso do bolinho” não se repetiu e acabou por morrer, exceto pela obsessão de Felipe, que passou a me chamar à cozinha pra experimentar suas criações, enquanto ele tentava copiar a receita que eu havia descrito. Apesar de deliciosas, nenhuma chegou realmente perto da original e eu saia de lá tão triste quanto ele, por não saber se provaria algo tão delicioso outra vez e, pior, nem conseguia imaginar quem teria colocado isso na minha bolsa.
Leo aparecia cada vez mais raramente, o que me chateava. Depois eu pensava que era uma coisa boa, pois ele era comprometido e essa paixonite impossível não me levaria a lugar nenhum. Você deve imaginar que isso era tudo conversa boba e, infelizmente, vou ter que confirmar. A verdade é que eu estava, sim, apaixonada pelo Leo e esperava, sinceramente, que ele não tivesse reparado, afinal, apesar de tudo, eu ainda era ou tentava ser, uma moça sensata.

***

Acordei cedo naquela manhã e olhe que era uma segunda-feira. Nicolau estava na cama, empertigado na minha barriga, dormindo e roncando como sempre. Levantei devagar e fui ao banheiro, escovei os dentes, coloquei um vestido leve e tentei acordar o preguiçoso. Depois de algumas sacudidelas, consegui fazê-lo acordar, troquei sua água e coloquei a ração, que ele comeu com disposição. Tomei meu chá com torradas (estavam deliciosas, desta vez) e peguei o colete e guia do meu cachorro.
— Vamos lá, fanfarrão. Vamos fazer diferente hoje.
Corremos para a pracinha mais próxima. Bom, por correr, entenda que eu tentei andar mais rápido, mas meu cachorro acabava sentando a cada quarteirão e eu tinha de levá-lo nos braços. Pela última visita ao veterinário, eu sabia que ele estava bem, mas fui fortemente aconselhada a fazê-lo passear mais vezes pois estava ficando acima do peso. É claro que era a preguiça dele falando mais alto e eu e minhas costas íamos pagar o preço. Passeamos cerca de meia hora pela praça e então voltamos pra casa. Ele desabou na cama (desta vez a dele) e eu fui para o banho, me preparando pra mais um dia de trabalho.

***

Era uma manhã comum e, estranhamente, tranquila para um início de semana. Rapidamente chegamos ao horário do almoço. Nessa altura do dia, a área de doces e pães ficava mais tranquila. A segunda surpresa do dia foi ver Leo passando pela entrada. Eu nunca o tinha visto aqui nesse horário e ele parecia nervoso, o que também era incomum. Cumprimentou a mim e a Tereza com um aceno de cabeça, ao qual respondemos da mesma forma. O vi entrar na fila do self-service e construir um prato incrivelmente grande para um rapaz de porte relativamente pequeno, pra não dizer magrelo. De vez em quando, ele me olhava e, é claro, eu ficava nervosa por isso. Será que eu estava diferente hoje? Meu cabelo não acordou querendo fazer acordo, é verdade, mas acho que consegui deixá-lo apresentável. Tereza teria me dito se houvesse algo errado. Não teria?! Além do mais, a touca não deixava muito dele aparecer, o que acabou por me tranquilizar e depois enervar novamente, pois se não era o cabelo, o que seria, então?!
Observei-o sair sem se despedir. Isso sim era estranho. Onde estava o Leo simpático e educado que eu conhecia? Tudo bem que nosso relacionamento era essencialmente profissional. Aliás, poderíamos chamar esse contato “me dê os bolinhos de sempre” de relacionamento? É claro que sim! Bom, talvez não… Não era muita coisa, afinal. Tentei esquecer meus pensamentos e trabalhei o resto do meu horário de forma mecânica e pouco convincente. Tereza, notando a minha “falta de espírito”, parava a cada cliente para me perguntar se eu estava bem, ao que eu respondia que sim, com um sorriso amarelo.
Às 14h sai do balcão para a troca de horário, fui para o cantinho dos funcionários, tirei touca e avental. Pelo espelho do armário, vi que eu estava meio abatida. “Era por isso que Leo estava me olhando”, pensei. Trancei o cabelo, passei um pouco de gloss e apertei as bochechas — na falta de blush, isso daria conta. Pronto, agora estava melhor! Esperei Tereza e saímos em direção ao ponto de ônibus. Foi ai que o vi. Leo estava sentado em um dos bancos da avenida paralela à padaria. Ao me ver, ele correu sem muita pressa e sorriu ao subir à calçada.
— Oi, Tereza – cumprimentou-a, parecendo ter recuperado a educação recentemente desaparecida. — Alice, gostaria de falar com você. Na verdade, preciso de um conselho seu. — Tereza pareceu ficar meio verde, me deu um beijinho e saiu ventando para o ponto de ônibus.
— Puxa, Leo, eu adoraria te ajudar, mas tenho que chegar em casa para alimentar Nicolau.
— Nicolau?
— Sim, meu cachorro.
— Ah… — esse me pareceu ficar nervoso novamente e até meio desapontado, mas se recuperou, pois perguntou: — Posso te acompanhar, então?
— Claro, mas fica longe daqui e eu vou de ônibus.
— Não tem problema, estou acostumado, pois é assim que vou visitar Karen.
— Hm. Certo.
Chegamos ao ponto e subimos no primeiro coletivo que passou. Leo, durante todo o trajeto, ficou se remexendo no banco, sem dizer uma palavra. Eu também não arrisquei falar nada, embora continuasse achando tudo isso mais do que estranho e tivesse começado até a sentir certo medo.
— Eu fico na próxima — falei.
— Hm, está bem. Vamos lá, então. — E ele deu sinal, abriu espaço para que eu passasse à frente, então descemos. Subi no degrau da portaria, já pronta pra entrar e falei:
— É aqui que eu moro, Leo. E então, que conselho você queria me pedir? — Olhando para os próprios pés e depois para meu rosto, direto nos olhos, ele falou:
— Conselho nenhum. Eu só queria te entregar isso. — E me entregou uma sacolinha de presente que eu, até então, tinha imaginado que seria para Karen-a-tal-namorada-sortuda-do-Leo. Para meu espanto, Leo chegou mais perto do degrau de entrada e meu deu um beijo. Não no rosto, não na boca. Foi na trave, como eu costumo dizer. Aquele beijo no canto da boca que só serve pra te deixar com vontade de beijar. E, sem mais nem menos, ele foi embora, me deixando com cara de boba, sem saber o que fazer.

***

Devo ter ficado paralisada durante alguns minutos, pois acordei do meu “estado” por uma senhora pedindo passagem. Corri as escadas, joguei minhas coisas no sofá-cama, fiz festa na barriga de Nicolau e coloquei sua ração. Deixei a sacola em cima do meu criado-mudo e sai olhando-a de rabo de olho. Eu ainda não tinha coragem de abri-la. Fui para o banho, no qual me demorei mais do que o necessário. Não tinha fome, portanto sentei e peguei a sacola. Nicolau me olhava com cara de “Como é que é? Não vai abrir?!”. Criei coragem e olhei para dentro da sacolinha. Havia um pequeno embrulho, o qual notei que era exatamente igual ao daquele cupcake misterioso. Peguei-o e abri. Novamente, era um bolinho. Desta vez era coberto com glacê vermelho e cheio de estrelas. Abaixo do papel, estava grudado um pequeno envelope. Abri-o e olhei o bilhete. A letra era pequena, de forma e pouco organizada. Era a letra dele, eu tinha certeza. Dizia “Na sorveteria da Praça Hortelã, às 17:00h. Não se atrase, por favor”.
Olhei para Nicolau, embasbacada.
— Veja só, Nicolau! Com certeza ele percebeu que gosto dele, mas se pensa que vai ficar comigo e com a tal-Karen-namorada-possivelmente-traída-do-Leo, está muito enganado! — Embalei novamente o cupcake e o coloquei na sacola. Devolveria quando encontrasse com Leo para saber o que estava acontecendo e o que a namorada dele achava de tudo isso.

***

O tempo voou enquanto eu organizava o meu minúsculo e atulhado apartamento, o que foi bom. Lavei toda a roupa suja, troquei os lençóis do sofá-cama e até a capa da cama de Nicolau. Olhei para o relógio e eram 16:30h! Refresquei-me e não perdi tempo escolhendo uma roupa, peguei a primeira que apareceu (o que foi fácil, pois era a única limpa), prendi o cabelo em um rabo de cavalo e sai com o bolinho em mãos.
A praça não ficava longe da minha casa e cheguei a tempo, faltando um minuto para 17:00h. O sol já estava se pondo, portanto estava fresco, o vento movimentava as árvores da praça e o cheiro de hortelã dos canteiros enchia o ar. Olhei ao redor e logo o vi. Leo estava com o mesmo visual desarrumado que me desconcertava, mas tentei manter o foco e me lembrar do que tinha me levado até ali. Ele acenou e caminhei até o banco onde ele estava sentado me esperando. Quando cheguei perto, ele fez menção de me tocar no braço, que desviei com rapidez. Seu rosto ficou sério. Coloquei o pacote no banco entre nós.
— Quero saber o que é isso. — Perguntei apontando para o pacote e ele me olhou com desconfiança, levantando uma sobrancelha e pegando a sacola.
— É um bolinho. — Ele espiou dentro e viu que estava intacto. — Achei que você iria gostar, Alice. Tereza me disse que você tinha gostado do primeiro.
— Tereza? O primeiro?
— Sim, Tereza. Ela me ajudou com o outro cupcake. Felipe o fez e ela colocou na sua bolsa.
— Como é que é? Leo, sinceramente, não estou entendendo.
— Alice, você não percebeu que eu ia à padaria só para ver você? Não percebeu que eu sempre pedia pelo seu atendimento? Os doces de Felipe são deliciosos e Karen os adora, mas sinceramente, há outras padarias na região. — E tentou sorrir, mas vendo meu olhar, ficou sério novamente.
— Leo, não entendo, realmente. Você arma um plano com meus amigos, que foi muito bem arquitetado, se me permite dizer. Tereza negou veementemente e Felipe, bem, ele me convenceu que estava tentando recriar uma receita fabulosa! Mas ai você fala dessa tal Karen. Desculpe chamá-la de tal, sei que é sua namorada e devo respeito, pois não a conheço e eu não o conheço, também. Tenho certeza de que você percebeu o que sinto por você, mas não é por isso que pode fazer o que está fazendo. Quase me beija e me dá esse presente. Um doce, algo que eu adoro. Leo, eu não posso. Você é comprometido e eu não sou assim, se é que você me entende.
Na outra ponta do banco, vi Leo começar a sorrir com os olhos. Sorriso que desceu para a boca, virando uma gargalhada. Eu não podia acreditar que ele estava rindo na minha cara! Um pensamento me ocorreu. “E se eu me confundi? E se o beijo era pra ser no rosto? E se o bolinho era um agradecimento por escolher os melhores cupcakes para a namorada dele?”. Ultrajada e envergonhada, levantei do banco e corri. Poucos metros depois, senti uma mão me pegar pelo braço. Era Leo, vermelho como um pimentão por ter corrido atrás de mim. Aparentemente, parecia que ele precisava mais de exercícios do que meu cachorro.
— Alice, espera… — E ele parou com as mãos nos joelhos, respirando alto e com dificuldade; depois sacudindo uma das mãos pedindo pra que eu esperasse. Decidi esperar, apesar de querer mesmo é cavar um buraco e me jogar dentro dele. Com certeza deixei os meus devaneios subirem à cabeça e confundi tudo. Pior, estraguei minha amizade com Leo!
— Alice — respira, respira —, você entendeu tudo errado! — E mais risadas explodiram. Eu já ia embora novamente, mas ele, mais uma vez me segurou. — Desculpe, vou me controlar. Isso acontece quando estou nervoso. Alice, desculpe não ter explicado. Karen não é minha namorada, ela é minha irmã e amiga de Tereza. Há pouco tempo, elas se conheceram e ficaram amigas. Eu passei a ir à padaria buscar doces para Karen, pois Tereza tinha recomendado fortemente as delícias criadas por Felipe e, sendo minha irmã uma formiga, não tive escapatória. E foi numa dessas idas à padaria que eu a vi. Sei que é absurdo e bobo, mas me apaixonei. Pelo seu jeito simpático e tímido de atender aos clientes, pelo esmero e cuidado que você tinha ao embalar os doces. Tentei fugir, não demonstrar meu interesse, pois tinha medo que me achasse maluco, o que depois da minha atitude na portaria do seu prédio, deve ter se confirmado.
— Leo, eu não sei… — Com essa resposta, Leo ficou pálido e balançou a cabeça.
— Está tudo bem, Alice. Eu entendo você. — e foi dando as costas.
— Leo, espere!
— Hum, o que foi?
— Eu realmente entendo o que quis fazer e o admiro pela sua coragem. Eu jamais teria feito algo assim. — Sorri da forma mais amigável que pude. — E já que você é um rapaz livre e não há mais Karen-a-namorada-perfeita-do-Leo, acho que posso revelar. Toda vez que você entrava pela porta da padaria, meu coração parava e eu ficava nervosa. Involuntariamente comecei a me atrasar para o trabalho e Seu Germano, o dono da padaria, me trocou de horário. Pela minha timidez, nunca fui boa em atender os clientes, preferia ficar nos bastidores ajudando com os doces e pães. Mas com você, eu não me sentia assim. Sempre foi bom, embora meio triste, embalar e escolher os doces para você. E já que é assim, acho que, se você realmente quiser, podemos tentar. Só há duas condições.
— E quais são elas? — Perguntou Leo, não sabendo de ficava nervoso ou feliz.
— Que você passe esse cupcake delicioso pra cá e me dê a outra metade daquele beijo que faltou!


FIM

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