Artigos de Colecionador #3.1

, em segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013 ,
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Era Uma Vez - Parte I

Desconstruindo os contos de fadas: origens nada infantis


Peço desculpas antecipadas, porque provavelmente vou destruir a infância de alguns de vocês. Afinal, todo mundo já leu, ouviu ou assistiu alguma versão dos contos de fadas mais famosos. Não importa se, hoje em dia, você é um machão que assiste Dexter e pratica MMA, é grande a probabilidade de você ter chorado assistindo Bambi quando tinha quatro anos. Os contos de fadas fazem parte da infância, período que a maioria dos psicólogos, psiquiatras e pedagogos concordam ser axial para a formação de caráter, o alicerce da personalidade dos seres humanos. São usados no processo de alfabetização, na explicação dos papéis sociais (pai, mãe, irmãos, cônjuges), no estímulo da criatividade e da imaginação. Representamos essas histórias nas peças de colégio, nas primeiras redações, quando aprendemos a desenhar - enfim, é um pedaço muito significativo da vida de uma criança.

No Brasil, são mais conhecidos os contos de fadas ocidentais, vindos em sua maioria da Europa, com fadas, duendes, gigantes, feitiços, castelos e dragões como temas recorrentes desses enredos. É claro que outras culturas, distanciadas da influência europeia, também criaram suas versões de contos fantásticos: os índios brasileiros criaram muitas lendas, como a do boto e a do boitatá; o Oriente Médio presenteou o mundo com centenas de contos incríveis, depois unidos sob o véu de Scheherazade, que contava histórias para distrair o rei persa com que casara; a China, as Coreias e o Japão têm inúmeras histórias sobre deuses, espíritos e dragões... Enfim, qualquer grupamento humano provido de cultura acaba por criar e perpetuar esse tipo de história, cada uma delas interessante em sua singularidade.

Os contos de fadas sempre serão os livros mais bonitos da existência, verdade ou verdade?



Partindo dessa premissa, é possível considerar um conto de fada como conto folclórico. Entretanto, falando especificamente dos contos de fadas ocidentais, essas histórias já transcenderam significativamente essa classificação de "folclore". Não estão mais limitados geograficamente porque tomaram o mundo, atingindo a todos os países e continentes que foram colonizados ou influenciados pelas potências europeias. Acabaram virando até mais populares do as histórias nativas, especialmente depois do surgimento do cinema. Ou melhor, da Disney.

Então, é possível dizer que, atualmente, pensar em contos de fadas tem a reação pavloviana de forçar a pessoa a pensar em Branca de Neve e os Sete Anões, A Bela e a Fera, Bela Adormecida e Cinderela ao invés de Boitatá e Boto Rosa. Tudo o que não é conto de fadas europeu se tornou "lenda" com o tempo. Afinal, um peixe que vira gente e um boi em chamas são muito menos glamourosos do que castelos, princesas e tesouros.

Fonte: thedisneyprincess @ tumblr

No entanto, a concepção mágica e benigna que adquirimos a respeito desses contos de fadas europeus é nada mais, nada menos que um belo eufemismo. Nas versões originais, a máxima do "viveram felizes para sempre" geralmente custa muito caro a todos os envolvidos - quando se realiza. As histórias que nos apresentam na infância como contos infantis não passam de versões polidas e politicamente corretas de histórias verdadeiramente macabras.

Nomes Têm Poder



Tal ilusão começa a ser construída no próprio nome desse tipo de história. Quando se fala em contos de fada, lembramos imediatamente de pequenos seres alados que cuidam de flores ou da fada madrinha que realiza desejos, não é? Essa concepção de "fada" não tem nada a ver com as origens desses seres lendários. O folclore das fadas europeias muito raramente se aproxima da gordinha de azul que canta Bibbidi-Bobbidi-Boo e transforma abóboras em carruagens. Nã-nã-ni-na, elas estão MUITO LONGE de serem beatíficas e altruístas. Os filmes dos anos oitenta para cá, especialmente os da Walt Disney Pictures, criaram todo um conceito de fada para encantar crianças, enquanto, antigamente, as fadas estavam junto ao Lobo Mau e às Madrastas Malvadas no time dos personagens criados para assustar e garantir a obediência dos pequenos.

Quem já leu Os Instrumentos Mortais da Cassandra Clare ou a série Terrível Encanto da Melissa Marr sabe do que que estou falando. Os livros de sobrenatural urbano mais adultos, como Mercy Thompson e Sookie Stackhouse, são ainda mais diretos: as fadas do folclore são seres poderosos e implacáveis. Vivem centenas de anos, têm um conceito de tempo completamente distinto do nosso e consideram os seres humanos da mesma forma que uma pessoa considera um aquário ornamental. Não é a intenção delas ajudar ninguém; elas podem tolerar os homens, caminhar com eles, fazer favores por impulso e até mesmo se apaixonar por alguém da nossa espécie, mas certamente não são anjinhos a respeito. Existem MUITOS relatos folclóricos de pessoas ficando presas em um véu de fadas por anos, caindo em feitiços horríveis por motivos torpes, destruindo a própria vida em troca de um desejo realizado e outros eventos nessa linha. Isso quando a fada não possui uma dieta carnívora de CARNE HUMANA, é claro. Sabe a bruxa de João e Maria? Pois é, não era uma bruxa.

Olha a fada fazendo a Egípcia para vocês, reles mortais.

Na verdade, esse nome, "contos de fadas", é razoavelmente recente, criado no século XVII pela Madame d'Aulnoy. Entre o século XVIII e XIX, houve a associação dessas histórias às crianças. Antes disso, eram contados para audiências adultas e infantis, sem distinção.

Então, se alguém falasse de contos de fadas, no contexto original, imagino que as crianças deviam ficar apavoradas. Aposto que elas gostariam de ter Baigon em casa na Idade Média, e nem só por causa da Peste Negra. E ainda nem comecei a falar dos contos propriamente ditos.

Os Originais


A maioria dos contos de fada europeus são atribuídos aos Irmãos Grimm, que compilaram um número impressivo de histórias populares em forma de romance escrito. No entanto, houveram muitas outras compilações ao longo dos séculos, já que os contos originais são bastante antigos. Além disso, vários autores divergiam da tradição e criavam seus próprios contos de fadas que, com o tempo, se tornaram tão célebres quanto os de origem folclórica, como é o caso de Hans Christian Andersen.

(Abrindo um parênteses para aumentar o conhecimento de mundo de vocês: o livro Contos Fantásticos do Andersen era chamado, em dinamarquês, de Eventyr. QUE. NOME. LEGAL.)

Independente da fonte, uma coisa é certa: os compiladores mais famosos certamente amaciaram a aspereza das histórias originais. Os próprios Irmãos Grimm tiveram que reescrever os livros originais porque os contos das primeiras versões não eram considerados adequados para crianças. Foram retirados muitas conotações sexuais, violência explícita, crueldade, tortura, racismo, assassinato e até canibalismo.

Na próxima quarta, deixem-me começar a macular a infância de vocês destrinchando os exemplos mais famosos e queridos do gênero, começando pela Bela Adormecida e terminando com a minha favorita, que é A Pequena Sereia.

 Continua em Artigos de Colecionador #3.2: Era Uma Vez - Parte II  


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