#123: Cidade das Cinzas - Os Instrumentos Mortais - Cassandra Clare

, em segunda-feira, 14 de janeiro de 2013 ,
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Editora: Galera Record
Páginas: 404
Ano: 2011

Sinopse (via Skoob): Clary Fray só queria que sua vida voltasse ao normal. Mas o que é “normal” quando você é uma Caçadora de Sombras assassina de demônios, sua mãe está em um coma magicamente induzido e você de repente descobre que criaturas como lobisomens, vampiros e fadas realmente existem? Se Clary deixasse o mundo dos Caçadores de Sombras para trás, isso significaria mais tempo com o melhor amigo, Simon, que está se tornando mais do que só isso. Mas o mundo dos Caçadores não está disposto a abrir mão de Clary — especialmente o belo e irritante Jace, que por acaso ela descobriu ser seu irmão. E a única chance de salvar a mãe dos dois parece ser encontrar o perverso ex-Caçador de Sombras Valentim, que com certeza é louco, mau... e também o pai de Clary e Jace. Para complicar ainda mais, alguém na cidade de Nova York está matando jovens do Submundo. Será que Valentim está por trás dessas mortes? E se sim, qual é o seu objetivo? Quando o segundo dos Instrumentos Mortais, a Espada da Alma, é roubada, a aterrorizante Inquisidora chega ao Instituto para investigar — e suas suspeitas caem diretamente sobre Jace. Como Clary pode impedir os planos malignos de Valentim se Jace está disposto a trair tudo aquilo em que acredita para ajudar o pai? Nessa sequência de tirar o fôlego da série Os Instrumentos Mortais, Cassandra Clare atrai os leitores de volta para o lado mais obscuro do submundo de Nova York, onde amar nunca é seguro e o poder se torna a mais mortal das tentações.



Atenção! Esta resenha trata de um livro que é continuação de outro; ou seja, pode conter informações cruciais sobre os volumes anteriores! Se não quiser ler spoilers, não siga adiante!


O livro anterior deixa o leitor naquele momento de suspense facilmente associado à música de tensão da novela "A Usurpadora". Vocês sabem do que eu estou falando:



Jace e Clary estavam ensaiando um romance - ainda muito pueril e inocente para ser considerado alguma coisa mais séria - quando foram prontamente derrubados da Nuvem Número Nove por ninguém menos do que o PAI DELES. É isso aí, deles, plural, porque Valentine revelou que Jace é, na verdade, Jonathan Christopher MORGENSTERN. Sabe, filho mais velho do casamento entre Jocelyn e Valentine. A nova informação faz o mundo de Clary e Jace cair rapidinho, e trás toda uma nova perspectiva sobre a vida dela como mundana, a vida dele como filho adotado pelos Lightwood, e o laço que os une.

Então, geralmente, quando alguém fala que você tascou um beijo nada platônico em uma pessoa que acontece de ser SEU IRMÃO/IRMÃ, as reações mais comuns são horror, angústia, culpa ou até nojo, certo? Sentimentos que matam rapidinho qualquer tipo de "paixão" entre os indivíduos. A menos que você seja um Targaryen ou, sabe, o Rei Arthur.

Isso não aconteceu com Jace e Clary. De forma verdadeiramente shakespeareana (ou freudiana, pensando bem), os dois levaram ao pé da letra aquela máxima de "o que não mata, fortalece": ao invés de extinguir a chama entre eles, a notícia de que eram irmãos parece elevar exponencialmente a atração e o sentimento do casal. No primero livro, a evolução do relacionamento deles é agradavelmente lenta, um passo de cada vez, porque os dois reconhecem logo que estão interessados um no outro, mas também estão plenamente cientes de que existem assuntos mais importantes para tratar. Além disso, logo percebem que levar adiante o que parecem sentir seria como jogar bombas no relacionamento de parabatai entre Jace e Alec, e na amizade entre Clary e Simon. Fica a impressão de que eles provavelmente jogariam para escanteio a ideia de ficar de agarrando por aí enquanto o problema dos Instrumentos Mortais continuasse.

No entanto, depois de saber que eles NUNCA poderiam concretizar tal ideia, os dois ficaram meio que obcecados por ela. E o que era uma paixonite recém-nascida foi alimentada por uma coisa que quase nenhum ser humano consegue controlar: desejo. 

Decidida a não ser uma  "pecadora" incestuosa, Clary dá uma chance a Simon e inicia um namoro com ele. Os dois obviamente se amam, mas não estão na mesma frequência em nenhum momento: Simon, que já vinha carregando uma tocha olímpica pela melhor amiga, investe na relação com tudo o que tem; Clary, que nunca, nunca mesmo, havia imaginado Simon como seu namorado, tenta corresponder com o desespero de alguém que não tem outra opção. Resultado: o relacionamento amoroso deles fica fadado ao fracasso, e resta ao leitor observar, fascinado, a tragédia desenrolar. E nem estou exagerando, viu. Não é excesso de drama. O negócio termina em TRAGÉDIA, mesmo, uma que muda para sempre a vida de Simon.

Por outro lado, Jace lida com a situação da única maneira que conhece: caçando. O cara é cheio de problemas devido à criação muito THIS IS SPARTA WITH LASERS que lhe foi dada por Valentine na infância e, dentre todos os seus traumas psicológicos, a ideia de que a única coisa que dá valor à existência dele é sua habilidade para DESTRUIR coisas se torna, logo na primeira página do livro, o maior dos perigos para a integridade do garoto. Ele sai matando tudo o que está na lista dos Caçadores para ver se tira a irmã da cabeça, e isso deixa o leitor com o coração na mão até a página 404, falando sério.
Resumindo, Clary e Jace passam o livro TODO tentando resistir a essa vontade que está comendo a ambos por dentro, e fica muito claro que nenhum dos dois está tendo sucesso nessa empreitada. A tensão emocional entre eles domina o livro inteiro, é a parte mais memorável do enredo e consegue eclipsar todo o resto. Sério, acontecem muitas coisas (inclusive a já mencionada tragédia do Simon) importantes, envolvendo as corte das fadas de Nova York, a Inquisidora dos Caçadores de Sombra, os Irmãos do Silêncio e portais para invocar demônios e afins, e ainda assim, é a co-dependência crescente e voraz entre os protagonistas que faz os leitores engolirem a história toda em uma sentada.

No final de tudo, fiquei com a impressão de que estava atravessando uma ponte no meio da tempestade e, quando cheguei do outro lado, vi que ainda estava do lado errado. Se é que dá para entender a comparação. É ANGÚSTIA. Mas daquelas TÃO BOAS.

Toda a expectativa e a culminação da guerra entre os Caçadores, os seres do Submundo e a facção de Valentim sobram para o terceiro livro da série, Cidade de Vidro. A principal dúvida dos leitores no primeiro livro persiste como dúvida, e deixa um sentimento muitíssimo conflitante: torcer para um romance entre Jace e Clary independente de parentesco, ou torcer para que a desconfiança nascida de experiência com novelas mexicanas se concretize?

(Essa que voz fala tem três irmãos e NUNCA, JAMAIS pensou no assunto aplicado a eles, obviamente, mas admite, com certa vergonha, que não vê problema em ler casais incestuosos. Quero dizer, Arthur e Morgana das Brumas de Avalon e os Targaryen de ASoIaF estão bem alto na minha lista de casais/trios favoritos. Sendo sincera. O que significa que eu não estava torcendo especificamente para Jace e Clary não serem irmãos; seria bom, é claro, se fosse verdade, mas o que eu queria mesmo era que eles, APESAR DE, se rendessem logo ao que sentem antes de esmagar o universo com a UST.)

Enfim, recomendo a todos os que gostaram do primeiro livro. Se não gostou de Cidade dos Ossos, esse aqui não é procê.

Nota: 4,7/5 ➊➋➌➍➄

Passagem favorita: "Caçadores de Sombras: mais bonitos de preto do que as viúvas de nossos inimigos desde 1234." - Jace Wayland Oops, essa passagem era do livro anterior!


P.S.: Gostaria de fazer uma ressalva aleatória: acho que a nomenclatura dos livros acabou ficando muito nada a ver com a história, nesse livro em particular. No primeiro, até que dá para entender, considerando que a Cidade do Silêncio é feita da cinza dos ossos dos antigos Caçadores e tal, mas nesse aqui ficou uma coisa muito "ah, vou colocar o nome assim para seguir a linha e que se dane o mundo". Outro dia, vi um post, acho que foi do Burn Book (+Camila Araújo, ajuda aqui [EDIT: Era do viagem literária! Obrigada, Mila! Cliquem AQUI para ler.]), com as capas da série ao redor do mundo, e as versões francesas mudaram os títulos dos livros para os nomes dos Instrumentos Mortais que figuram em cada volume. Apesar de achar que mudar esse tipo de coisa é um crime contra a criatividade dos autores, confesso que a ideia dos franceses faz muito mais sentido do que a da Clare.

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