#86: Belle - Lesley Pearse

, em quarta-feira, 15 de agosto de 2012 ,
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Editora: Novo Conceito
Páginas: 560
Ano: 2012


Sinopse (Skoob): Londres, 1910. Belle, de 15 anos, viveu em um bordel em Seven Dials por toda sua vida, sem saber o que acontecia nos quartos do andar de cima. Mas sua inocência é estilhaçada quando vê o assassinato de uma das garotas e, depois, pega das ruas pelo assassino para ser vendida em Paris. Sem poder ser dona de seu próprio destino, Belle é forçada a cruzar o mundo até a sensual Nova Orleans onde ela atinge a maioridade e aprende a aproveitar a vida como cortesã. A saudade de casa — e o conhecimento de que seu status como garota de ouro não durará muito — a leva a sair de sua gaiola de ouro. Mas Belle percebe que escapar é mais difícil do que imaginou, pois sua vida inclui homens desesperados que imploram por sua atenção. Espirituosa e cheia de desenvoltura, ela tem uma longa e perigosa jornada pela frente. A coragem será suficiente para sustentá-la? Ela poderá voltar para sua família e amigos e encontrar uma chance para a felicidade? Autora # 1 bet-seller, Lesley Pearse criou em Belle a heroína de nossos tempos: uma mulher forte que luta por seus direitos em um mundo perigoso.


Histórias sobre cortesãs de luxo têm sempre o potencial para se tornarem épicas. Personagens desse tipo de enredo possuem as facetas mais diversas e enriquecem muito as possibilidades de conflito e desfecho. Existem cafetinas e cafetões, cruéis ou simplesmente realistas; os clientes, capazes de assumir todas as carapuças de um amante; e as próprias cortesãs e a forma como encaram o ofício de se vender por dinheiro. A maioria dos romances desse gênero que já li ou assisti terminam em tragédia, é claro, já que o período da literatura que consagrou esse tema, que foi o Romantismo, pregava a morte como a única redenção das "mulheres perdidas", por mais lindas e fascinantes que elas fossem. Aposto como a maioria dos que assistiram Moulin Rouge - Amor em Vermelho pode atestar isso.

Quando li a sinopse de Belle, fiquei muito feliz em notar que não estava prestes a ler uma reedição de Madame Bovary ou Lucíola. Fiquei ainda mais empolgada porque a protagonista era bem jovem e, pela grossura do livro, imaginei que acompanharia boa parte da vida dela e de suas peripécias como cortesã. Nem preciso dizer que estava cheia de empolgação, né? E acho que foi esse o meu maior problema: estava com expectativas altas demais. Acabei me decepcionando um pouco.

Não que o plot seja ruim, longe disso. Envolve assassinato, sequestro, gente importante com negócios obscuros e bordéis em Nova Orleans, ingredientes perfeitos que dificilmente podem ser estragados. Além disso, a protagonista, Belle Cooper, é esperta e charmosa, e consegue cativar o leitor facilmente com seu jeito pragmático. Os demais personagens são igualmente bem construídos, e nenhum deles recebe tratamento preto-e-branco para separar quem é "mocinho" de quem é "bandido". Todos tem um motivo, uma história que os levou a fazer o que fazem, e a ser o que são, até mesmo o pior dos crápulas da história.

O problema de Belle não está, portanto, em seus elementos de base, e sim na forma como eles foram expostos ao leitor.

Para começar, os pontos de vista da narrativa são irregulares, pulando de Belle para seu amigo, Jimmy Reilly, para Mog, sua "babá", para o jornalista Noah, e para o malandrinho Etienne - enfim, são vários polos narrativos, muitas vezes temporal e geograficamente distantes. Isso faz a história perder um pouco de ritmo nas transições do meio do livro. Além disso, a autora insiste em desenvolver alguns fatores psicológicos de certas personagens quando tudo o que o leitor quer é saber o que está acontecendo com Belle e, enquanto essa tática pode ser executada em outros livros para aguçar a curiosidade, o que acontece nesse livro em particular é uma certa perca de interesse.

Creio que esse seja o maior problema do livro: Pearse desvia demais o foco da história de Belle para os outros personagens, e acaba deixando muitos vácuos na construção da vida da menina como cortesã. Terminei de ler o livro com muita curiosidade insatisfeita e achando todos os eventos muito corridos. Fiquei esperando algum romance tórrido proibido a lá Memórias de uma Gueixa, mas fui decepcionada pelo pseudo-realismo que alguém achou melhor incluir na história. E é pseudo mesmo, porque todo evento que se desenrola de forma realista na história é compensado por momentos deus ex machina que variam de planos mirabolantes a soluções psicológicas convenientes.

Outra coisa que me deixou meio decepcionada foi o desenvolvimento emocional de alguns relacionamentos. Está certo que o livro não precisa ter um romance épico nível Edward/Bella para ser decente, mas, considerando o tema desse enredo, com bordéis e cortesãs, deficiência no romance acaba sabotando a proposta inicial e o público alvo do livro. Só fiquei empolgada com possíveis relacionamentos amorosos nessa história durante os últimos capítulos e nem posso explicar minha frustração posterior sem estragar a surpresa da leitura de vocês.

E olha, surpresa é um dos pontos positivos de Belle. Por mais que se espere um final feliz para o livro, a autora dá muitas voltas inesperadas na história, regata alguns personagens que você já tinha até esquecido, e não dá ponto sem nó. Também é preciso elogiar a pesquisa e o trabalho de costura histórica de Pearse, que foi cuidadosa em adequar os maneirismos e o raciocínio dos personagens aos ideais da época, especialmente na parte da história que se passa na Inglaterra. O final do livro contem alguns apêndices sobre prostituição e tráfico de mulheres muito interessante, e a Novo Conceito complementou o trabalho colocando várias notas de rodapé para explicar alguns termos, referências e expressões que precisam de contexto regional para ser entendidos.

Também preciso compartilhar com vocês a minha satisfação com a edição estética do livro. Ele é muito bonito, daqueles que merece ser comprado só pela capa! A foto dela é linda, com um belo jogo de luz e sombra que remete ao aspecto turvo da vida de uma prostituta. O título é todo trabalhado em alto relevo, na capa, e existem vários arabescos de textura siliconada adornando tudo. É um luxo! A tipografia também é muito mimosa, com uma letra serifada e bem fácil de ler.

Infelizmente, a adaptação para o Português não está no mesmo nível de qualidade da capa e da diagramação do livro. Encontrei vários erros de grafia, períodos com sintaxe confusa, fraseamentos esquisitos e uns poucos termos e expressões que foram claramente traduzidos no sentido errado. Eu estava até marcando as páginas dos equívocos, mas acabei perdendo a paciência com isso depois de colar mais de dez post-its pelo meu livro. Os deslizes não acontecem o tempo todo, mas surgem com frequência suficiente para chamar a atenção do leitor. A Novo Conceito vai precisar dar uma revisadinha caprichada antes de mandar rodar as próximas edições de Belle.

Enfim, reitero que a minha decepção se deu porque fui com muita sede ao pote e provavelmente estava esperando a versão histórica de Uma Linda Mulher ao algo assim. Belle está mais para um livro de mistério do Sidney Sheldon do que Hilda Furacão.



Nota: 3,5/5 (Porque alguém precisa revisar essa tradução, urgente!)

Larissa

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